Re-tornando à Realidade.

Assim
que desceu – apressou o passo. Sentiu uma leve dor na perna esquerda. Compreendeu.
Rapidamente. Mesmo com a dor – quase riu. Devia ser consequência do despertar ao
estilo circense.

Lembrou
do desdém. Com a hora. Com os atrasos. Impossível fingir. Ainda mais depois de
tantos tropeções. Dança de edredom. Orações para inventor do corrimão. Era claro.
Claríssimo. Detestava se atrasar. O relógio era realmente seu superintendente. Riu.
Palavra longa. Pensou enquanto caminhava rápido. Para um dia de segunda feira. Em
especial após um final de semana lá.

O
vento frio a localizava bem – onde estava. Mas se tornou terapêutico. Refrescava
a pele quente do rosto. Quem sabe seria até uma boa desculpa. Estou, sim, vermelha.
Deve ser o vento frio. Minha pele é sensível ao frio. E nem daria mais
explicações espaciais. Só climáticas. Perfeito.  

Subiu
a pequena rampa. Não sem uma certa dificuldade. A dor da perna – esquerda – a incomodava
com evidência quase clínica. Desconsiderou. Continuou o percurso.

Nem
bem chegou – já a encontrou. Ela estava sentada diante do habitual. Acomodada à
sua função. Com aquele jeitinho um tanto irônico.

Ela
sorriu. Lá da sua cadeira. E foi logo dizendo. Já sei de tudo. Já sei o que fez
no final de semana. Soube por eles.

E
lá se foi por terra – o que seria opção para as marcas do mar. Do ar, então,
fora de consideração. Esforçou-se para não rir. O final de semana tinha sido realmente
ótimo. Ria de dores e quedas. E ainda fazia conclusões à base de rimas
poéticas. A métrica a serviço do sol.

Ela
continuou. Comentei com a minha família. Quero isso. Decidir assim. Sem programação.
Apenas dizer – é agora. A mãe sempre dócil – consolou. Um dia. Um dia.

Tudo
isso foi informando. Em meio ao riso.

Ela
era especial. Parecia sempre muito séria. E muito desconcentrada. Mas só para
os incautos. Ou os desatentos. Um pouco de observação e a ideia se transformava.

Era
tranquila – por certo. Bem humorada – quase sempre. Preocupada – sempre. Atenciosa
– todo o tempo. Falava em tom de voz baixo. Não lembrava tê-la visto aumentar
os decibéis da voz – uma vez sequer. O raciocínio era rápido. Sagaz.

Lembrou
da avó da amiga. Ela sempre avisava. A sagacidade é muito mais uma virtude do
que um complemento, menina, muito mais uma virtude do que um complemento. Procedia.

Fosse
o que fosse – respondia com parcimônia. Olhava com interesse. Atendia a quem
chegasse. Explicava o óbvio – como se fosse uma necessidade.

Fazia
um estilo de imagem bem particular. Alta. Magra. Cabelos pretos. Longos. Mas sempre
bem presos. Parecia gostar em especial de uma flor de metal. Pétalas negras – com
contorno prateado. Ganhara de presente. E num dia de muito humor. Foi logo questionando
a quem a presenteava. Sobre a eventualidade de ser um pequeno suborno. Riu. Mas
agradeceu o presente. E sempre o usava. Vai ver dispensou o suborno. Ou
esqueceu. E assim prendia os cabelos. Quase sempre com esta flor. Como uma
espanhola. A flor sustentava com firmeza. Mas sem perder a delicadeza. Batom e
unhas vermelhas reforçavam o toque andaluz.

Percebeu
que ela separava umas folhas de papel. Impressas. Enquanto comentava sobre o
que sabia. E até observava o que não sabia. Eis uma qualidade para a função que
exercia. Saber observar o que existe para justificar o que inexiste. Mas estava
ali. Juntando os papeis. E grampeando.

Parecia
atenta. Cuidadosa. Mas talvez um pouco impaciente.

Não
se conteve. Segurou os papeis. Olhou para ela. E riu. Riu de verdade. Avisou. Só
tem sistema aqui em baixo. A sua sala está fora da rede hoje. Esses papéis são
para você. Para se orientar no atendimento.

Riram.
As duas. Pensou. A segunda feira está diferente – não por que voltei de lá. Está diferente
– por que fui para lá. Parafraseando o poeta. Entender é preciso. Que sorte a
minha. E do meu sistema – nervoso. Riu.

Mais
uma vez agradeceu ao – já temeroso dela – Universo.

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    • Mara
    • July 12th, 2009

    Se a escritora fosse Da Vinci a moça da descrição seria a Monalisa pois com certeza se sentiu uma obra de arte na descrição. Não mudaria nada.Parabéns!

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