Com a pele por testemunha…

Desta
vez não teve jeito. Realmente falou. Não acredito. Quem sabe uma mágica
acontecia. E demorava mais de passar. Desacreditar também é uma forma de
revolução. De rebeldia explícita. E – ocasionalmente – pode dar certo. Arriscou. Mas não foi desta vez.

Sim.
Temos que correr. Já estamos em cima da hora. O frio pode até esperar. Mas o
vôo não.

Então
era verdade. Já tinha que voltar. É chegada a hora. Como falava a canção.  

Lembrou
em segundos. Da agenda. Do sistema. Do percurso. Dos trilhos. Não faltaram
lembranças. Vinham com uma rapidez incrível. Fosse o sistema de lá assim tão rápido
– e a função se faria bem melhor.

Qual
nada. Achou difícil ser vencida. Lembrou do frio. Da chuvinha fina no final do
dia. Das botas. Das blusas. Da lã. Até do edredom. Podia ser maravilhoso. Com plumas
de ganso e tudo o mais. Mas não tinha as listras. Não tinha a luz sobre ele. Enfim.

Tentou
até perder o vôo. Assim. Com displicência. Com disfarce de casualidades. Mas ele
estava atento. Avisava. Não adianta. Para de bobagem. Tem que ir e pronto.

Vai
levar isso também. Não vai caber na valise. Mas já compramos outra. Sim. Também
cabe nada mais. Nem pense em ir com esta camiseta. Quando descer lá vai
entender. O que significa congelamento rápido. Lógico. Depois desses dias no
sol – vai notar bem a diferença. Não sei se o corpo vai esquecer ou se
resignar. Mas sei que vai se arrepiar. Isso com certeza.

Riu.
Ele estava como sempre – solidário. Mas se divertia – com a atrapalhação dela.

Certo.
Vamos então. Para de caminhar olhando para trás. Vai cair. Você está quase uma
peça de teatro. Ou um ensaio. Precisa da marcação. Esquece as falas. Improvisa.
Se arrepende. Recomeça. Impossível não rir.

Optou
por uma briga. Com o tal cientista. Nada do tempo ser relativo. Lembrou também do
poetinha conterrâneo. Nada do tempo não se importar. Discordou. Zangada. Lembrou
até de frases bíblicas. Eles não sabem o que falam. Mas não os perdoou.  Nem pediu que fossem perdoados. Não estava em
situação de distribuir perdões. Só culpas.

O
tempo é mesmo é apressado. Autoritário. E imperativo. Tudo bem. Hiperativo até
combina. Porque sempre passa rápido. Voando. Dando ordens. Vai levando o que vê
pela frente. Não dobra esquinas. Não se interessa por perdas. Por faltas. Não
desvia. Não se preocupa com esbarrões. Ou com possíveis desavenças. Vai rápido
e acelerado. Indiferente. Nem lê avisos. Nem salvo- condutos.  Este é o tempo. E ele ainda foi falar da relatividade.
Nunca sentiu calor no frio. Nem frio no calor. Por certo.

 Mas foi em meio a esta discussão mental – que
riu.

Olhou
para a pele. Bronzeada. Quando chegasse lá iria assustar. Não tinha comentado
com ninguém. Sobre a súbita decisão. Eles sabiam. Mas somente eles.  Olhou-se no espelho. Até o nariz ficara
vermelhinho. Os cabelos clarearam com o sol. E com o sol sobre o sal. As marcas
na pele faziam moldura ao brilho das marcas na emoção. Sorriu para o espelho. Parecia
outra de si mesma. Estava feliz. Muito feliz.

Ainda
sentia o sabor das comidas. O cheiro do molho amarelo ouro por cima de peixes e
camarões. A bebida gelada diante do mar. O doce queimado das cocadas se
contrapondo ao salgado do sal do mar – nos lábios.

Refez
com os olhos fechados o passeio no Mercado. Não deixaram de comprar mais uma
tela. Toalhas de renda. Brancas. Alvejadas – como o vendedor explicou. Olharam para
o Forte. Sentiram o aroma das frutas expostas na Rampa. Os barcos balançando
com preguiça na água – ainda mais preguiçosa. Fitas coloridas prometiam proteção.
Badulaques transformavam mortais em semi-deuses.

Aconchegou-se
ao ombro dele. Sorriu.

Escutou
a informação. A voz delicada avisava. Dentro de vinte minutos estaremos
pousando. A temperatura local está de. Frio. Muito frio.

Tinha
sido maravilhoso. O corpo iria se resignar. Certo. Mas não ia esquecer. Não seria
preciso o esquecimento. Repetiriam em breve. Ele prometeu.

Deu
um beijo nele. Colocou o casaco. Acariciou
a pele recém ensolarada das mãos.

Desceram
a escadinha. Olhou em volta. Sim. Ali também tinha seus muitos encantos
particulares. Sorriu e acenou para eles que – também sorridentes – os aguardavam.

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