Ao Sol que arde…

Foi
um momento mágico. Sim. Pura magia.

Quando
pisou na areia. Quando sentiu o calor. O toque quente nos pés. Quase dizia – nem acredito.
Mas se auto-recriminou. Não se nega o que se vê. Nem o que se sente. O prazer
pode se sentir menosprezado. Ou até dispensado.

Continuou
se desautorizando. Diante do mar. Sempre disse que o corpo esquece. Naquele momento
discordou da própria citação. Ou da ideia que sempre permitira. Nada disso. Descobriu
ali o erro. Afirmação errada. O corpo não esquece. O corpo se resigna.

O
que não pode ser sentido – não precisa ser constantemente lembrado. Para que não fique
sofrido. Ou adoeça. O corpo também tem suas defesas. Não fica assim. À mercê. À
deriva.  

Assim estava. Com os pensamentos soltos. Um habeas pensamentus. Riu da bobagem. Deu
vivas ao espaço. Com o corpo vibrando diante do prazer resgatado. Quase igual a uma
poesia. Nascida de uma inspiração súbita. Ao tocar com os pés na areia quente. Morna.
Acolhedora.

Sentou.
Remexeu os grãozinhos com as mãos. Deixou que fugissem por entre os dedos. Acariciou.
Riscou desenhos. Nomes. Aprofundou. Cobriu. Superficializou. E repetiu tudo. Várias
vezes. Desde o início.

Ainda
demorou sentada diante dele. Do seu tão amado mar. Olhando para as ondinhas
ousadas. Como um namoro à moda antiga – primeiro sentiu o perfume. O cheiro delicioso
do mar. Até fechou os olhos.

Abriu
aos poucos. Deixou que a retina se acostumasse. Com certa parcimônia. Para depois
se impregnar de uma vez.

Depois
de um tempo sentada – foi para a água. Riu. Feliz. As ondas suaves cobriram-lhe
o corpo. Molhou os cabelos. Sentiu-os longos escorrendo nas costas. Sentiu o
sabor do sal nos lábios.

Deitou
um pouco na beirada. Deixou que a água brincasse como quisesse. Mais rápida. Mais
lenta. Mais forte. Mais fraca. O brilho do sol fazia pontinhos prateados em
volta dela. Do corpo dela. Entre deitar, levantar, mergulhar – nem soube mais o
tempo que lá ficou. Sentiu uma palavra na pele. Tatuada. Liberdade. Uma
sensação muito mais física do que emocional. Valorizou.

Repuxou
os cabelos para trás. Caminhou em direção à areia. Com um passo lento. Leve. Como
se tentasse não marcar a areia. Não além do necessário. Sem força. Sem urgência.

Abriu
uma toalha de listras coloridas. Ficou sobre as listras. Como que abraçada
pelas cores.

O
sol estava comportado. Bem comportado. Aquecia com delicadeza. Mas também marcava
as diferenças. O vento passeava calmo. Olhou para o mar. Para o horizonte.

Fazia
tanto tempo. Muito tempo.

De
repente – quase deu um pulo. E lá se ia toda a poesia listrada. Uma voz surgiu
sabe-se lá de onde. Objetiva. Voz firme. Quase um barítono. Com sotaque claro. Deu
um pulo. A voz se transformou em riso. E ao pulo dela – o pulo da voz também se
fez.

Começaram
a rir.

Ele
falou. Queria saber se gostaria de um côco.  Ali tem gelado. Vi que estava tão quieta. O sol
está quente. Por isso vim oferecer. Desculpa. Falou rindo. Disfarçava a intenção
de continuar rindo.

Aceitou. Quero, claro. Pode sim. Bem gelado.


se veio de novo a ideia do corpo que esquece. Mais uma vez entendeu o erro. A água
desceu fresca. Doce. Refrescou também a alma. Se controlou para não dar um
beijinho no côco. Que maravilha. Lembrou mais uma vez dos poetas. Esses tradutores
fieis – das emoções. Como gostaria de ser um deles.     

Assim
passou o sábado. Ou o sábado passou com ela. Não importava.

Estava
já na hora de sair. Recolheu seus objetos. Dobrou a tolha de listras coloridas –
de frente para o mar. Seguiu para o carro. Antes de entrar – olhou de volta longamente.
O mar estava azul bem forte. As ondas ficaram mais calmas por um momento. Suavizadas.

Teve
a impressão de ver uma mulher bonita sair da água. Com cabelos longos. Pareceu sorrir
para ela.

Sorriu
de volta. Agradeceu.

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    • peter
    • July 5th, 2009

    bonito mar, bonito som…bonitas palavras.

    • Mara
    • July 5th, 2009

    De uma forma doce e poética percebemos que podemos sentir prazer ao usufruir um momento em apenas algumas das criações de Deus, a praia, o mar, o Sol e agua de côco. Parabéns a escritora consegue descrever o que muitos de nós sentimos mais não conseguimos expressar em palavras. Parabéns!

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