O frio pode esperar…

Foi
assim. Em meio ao dia de trabalho. E que dia.

A
temperatura parecia cair a cada hora. Só esfriava. A chuva caia fina –
constante. O céu acinzentadinho parecia informar. Mais chuva.

Quando
chegou para atender – a primeira notícia. Nem bem tinha chegado à sala – foi
avisada. Sem sistema. Esta frase curta. Mas quase um livro. Não era um título. Era
o próprio texto. Qual um aviso lido em bola de cristal. De alguma feiticeira de
mau humor. Adivinhou o dia.  E não errou.

Sem
memória. Este sim deveria ser o título. Sem sistema e sem dados individuais dos
atendimentos. Tinha mesmo que revirar o cérebro. O encéfalo. Os neurônios. Vai lá saber mais o que. Todo o Sistema Nervoso. Dela. Lembrar detalhes. Priorizar sinais.
Mas enfim. Que seja.

Afinal
ninguém aqui nasceu amarrado a um sistema. Foi o que escutou. Ele veio avisando
isso corredor adentro. A quem reclamasse.

Pensou
em associação àquele seu olhar oriental. Olhos finos. Quase um tracinho. Pensou
em explicar como se nascia. E dos acidentes sobre nascimentos. Até das surpresas.
Para que entendesse bem o sistema. Ou que entendesse melhor o que significa
amarrado. Até riu. Mas calou. Já tinha complicação demais para um dia. E de
sexta feira. Optou pela prudência do silêncio. Amarrou-se sim, ela. Ao conselho
da avó de uma amiga. A imprudência de uma fala é risco para quem a pronuncia,
menina, a imprudência de uma fala é risco para quem a pronuncia.

Foi
neste tumulto que viu a mensagem. Ele contava sobre o dia. Dele. Lá. Além mar. Iria
para a praia. Passaria o dia da sexta olhando o mar. E lendo em alguma sombra. O
sol estava radiante. E ele também.

Leu.
E no intervalo sem sistema – lembrou.

Nascera
de frente para o mar. Morara por anos seguidos de frente para o mar. Era só
abrir uma porta de varanda. E o mar estava ali. A praia. Tão ao alcance dos
olhos – quanto dos pés.

Lembrou
com saudade. Do cheiro da maresia. Do caminhar descalça na areia morna no fim
da tarde. Do brilho amarelado do pôr-do-sol na água azulada. Do delicioso sabor
do sal nos lábios após um mergulho. Dos cabelos escorrendo- molhados – nas
costas. Do vento quente em volta da pele. Do olhar perdido no horizonte.  

Era
naquela outra cidade. De onde viera. Há tanto tempo. As lembranças foram tão
fortes – que supôs sentir o cheiro da brisa. Da comida. O frio até diminuiu. Lá devia
estar quente. Lá não tem inverno. É verão o ano todo. Pensou quase verbalizando.
Mas se conteve. Em tempos de falta de sistema – o melhor é mesmo se conter. Todos
os caminhos apontam sempre para a loucura. Ou a possibilidade dela. Riu.

Fez
destes pensamentos um entre parêntesis. Não apagou. Não deu um ponto final. Deixou
lá.

E
continuou o que tinha que ser feito. Com parcimônia. Com cuidado. Do jeito que
sempre fez. Independente da tal amarração ao sistema.

Mas
atrás do recém criado entre parêntesis tinham umas aspas. Mais ou menos assim. Uma
ideia vinha entre luzinhas. Assim. Súbita. Quase lúdica. Ainda bem. Sabia lidar
bem com as situações lúdicas.  

Quando
finalmente as tarefas se encerraram – deu atenção às luzinhas.

Saiu
de lá objetiva. Em direção a – podia assim se comentar. Telefonou para ele. Convidou.
Ele se assustou. Mas só no começo. Depois foi se acomodando – no percorrer do
discurso dela. Foi aceitando. Vai ver enxergou também as luzinhas dele. Vai lá
saber o que as luzinhas fazem num dia frio. Ou o que um dia frio faz com as luzinhas. Em especial numa sexta feira.

Enfim.
Não importa.

No
final escutou – vamos. Pode. Podemos. Sim. Concordo. É verdade. Li que está
quente lá. Céu e mar esbanjando azul. Conseguiu assim rápido. Perguntou já
saindo.


dentro do avião – riram. Retiraram casacos. Cachecol. Ela foi rápida retirar as
botas. Voltou já de sandalinhas. Camiseta. A pequena valise guardava a
programação do final de semana. Ele riu.

Mas
comentou. Queria entender um detalhe. Você falou algo sobre luzinhas. Parêntesis.
Não entendi bem.

Certo.
Deixa para depois. Deve ser mesmo coisa do sistema. Amarrado. Devem ter
desamarrado.


do alto viram o céu estrelado e escutaram o aviso. Final de semana de muito sol
e praia. Perfeito.

O
frio pode esperar.

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    • peter
    • July 4th, 2009

    pensava que brasil era só quente. baci.

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