Entre a Viagem e o Caminho

Acordou já pensando neles. Vai
ver sonhara com eles. Mas não garantia.

Já saia da cama com tantas
tarefas agendadas que os restos da noite se dissipavam mal abria os olhos. A manhã
se instalava com uma rapidez nem sempre aconselhável. E justo ela. Vivia
dizendo que acordar podia ser um ato – mas despertar era uma arte. Tinha que
ser bem aproveitada. Tinha que ser absorvida. Sempre filosofava a respeito do
despertar. Qual nada. Entre a arte e o ato corria mesmo era atrás do relógio.

Mas enfim. Nesse dia não foi
diferente.

Desceu no estilo emergência.
Estava chovendo. Em minutos já fazia as queixas rotineiras. Em direção ao
Universo. Sempre. O Universo era seu depositário. De queixas. Confiava que dele
viessem soluções.

Riu das próprias reclamações –
isso também rotineiro. E lá seguiu.

Foi nesse percurso que começou a
lembrar deles. Assim. Em meio à chuva. Em meio aos esbarrões de lá e de cá.
Olhando para o relógio. Sem esquecer-se do ar de desdém. Também rotineiro. Mas falso.
Fingia que não se preocupava com possíveis atrasos. Talvez uma tentativa de
enganar o consciente. Mas o inconsciente – por certo – se divertia. Com a total
distonia entre o desdém com o horário e o caminhar de passo apressado.

Mas ficou pensando neles. Com
aquela sensação de saudade positiva. Sempre muito cuidadosos. Com ela.
Dividiram muitas situações.

Lembrou de tantos momentos. Os
felizes. Os difíceis e dolorosos. Os verdadeiramente cômicos. Não faltavam
motivos para rir. Foi pensar nisso e riu sozinha.
Coisa que há tempos não fazia. Rir sozinha sobre os trilhos. Estava mais séria
ultimamente. Mas desta vez, não. Riu. Percebeu que alguns a olharam. Disfarçou
com uma tossezinha arranjada às pressas.

A decisão da viagem. A mudança
de pais. Ele foi primeiro. Como um desbravador. Em sua recém instalada adolescência.
Sofreu no começo. Mas decidido – cumpriu os oito meses necessários ao currículo.
Foi encontrá-lo para o final de ano juntos. Neve para todo lado. Só não tinha
mais neve do que riso. Porque riam de tudo. Principalmente pelo re-encontro.

Lembrou uma cena especial. Na
bilheteria daquele Teatro sofisticado. Queriam os ingressos. Estava esgotado. Só
uma possibilidade. Assistirem de pé. Mas com local para descansar os cotovelos.
Impossível não rir. Quase provocaram um desconforto diplomático. Mas aceitaram.
Assistiram. Não se lembra de nunca mais terem cotovelos tão descansados como
naquela noite.Depois foi a vez dele. A neve
estava mais concorrente. Mas perdeu. Novamente o riso do re-encontro mereceu a premiação.
Ele foi buscá-la no aeroporto. Avisou. Fiz a barba. Sei que você não gosta de
barbados. Riram desde ai.

E foram tantos risos e festejos.
Tanta união. Sempre. Nas inevitáveis dores da Vida – eles estavam lá. Juntos.

Ele – mais uma vez desbravador –
mudou de cidade. Todos mudaram juntos. Não queriam que ela ficasse lá. Longe
deles. Vem. As cidades são assim. Dão o que tem que dar. Ai já deu. Acabou. Vem
para cá. Veio feliz em seguida ao convite. Não conseguiria mesmo – ficar
distante deles. É sempre bom ser reconhecedor dos próprios limites.Nem sempre o mundo externo
facilitou solução. Mas o mundo interno sempre foi pródigo em afeição.

Muito mais passou pela memória.
Muito mais riu sozinha. Teve momentos em que secou uma ou outra lágrima
atrevida. Desconsiderou de vez os observadores. Estava muito mais para seu
próprio mundo.

De repente olhou para os lados. Já
não eram mais tantos como no começo. As paradas nas estações foram deixando
espaços vazios. Alguns estavam ler. Outros a olhar a paisagem. Outros a
cochilar. Quantos estariam ali fazendo o mesmo que ela. Uma viagem particularmente
invertida. Deu um meio sorriso.

Olhou para as mãos. Para o
relógio. Deu-se conta de um outro tempo. De um tempo construído. De uma
cronologia particular. Onde os atrasos e as antecipações se dão dentro de um
cronograma simbólico. A realidade vem apenas emoldurar – na medida certa.

Teve uma sensação de paz. De
bem-estar. Eles estavam bem.

Chegou ao lugar rotineiro.
Desceu. Ainda chovia. O frio aumentara. Deu uma rápida olhada em direção ao
Universo. Riu. Trazia no rosto uma expressão feliz. Subiu as escadas. Iniciou a
rotina agendada.

Tão logo pode – telefonou para
eles.


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    • peter
    • July 3rd, 2009

    oi , outra fotografia , bem escrita, enevoada, pendurada como roupa a secar… mas são fotografias, pedaços,instantes recordados…um beijinho, vá.

    • Anonymous
    • July 3rd, 2009

    Uma prosa um tanto diferente. Escreve muito bem. Mas a história me deixou um pouco confusa… Enigmática, não quis nos contar absolutamente nada, e acabamos saindo sem saber nada mesmo… Sensação angustiante, haha. A ideia de frases curtas é muito boa, mas cuidado, porque as vezes corta muito o embalo do paragrafo…

    • Anonymous
    • July 3rd, 2009

    Adorei. Fala para nossa amiga que é verso em prosa… rsrsrsLiteratura da nova era, onde as pessoas não tem tempo, nem saco, de ler parágrafos longos, principalmente, via internet onde tudo é curto e rápido, rsrs brincadeira…ahahaha daqui a pouco ela vai lá me xingar!Sempre vale o toque, né?Depois de um longo e tenebroso inverno, eu consegui aparecer e escrever um texto. Uhuuuull vou abrir um vinho hj pra comemorar… beijo grande!

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