Os Sabores do Inverno

Não
esquecia um determinado comentário dela.

Escreveu
dizendo. Achava muito bonito. Fazer uma festa apenas os seis. Tem quem
discorde. Quem ache que festa tem que ter muito mais. Pessoas. Mais distantes.
Ou mais sociais. Afins e sem fins. Elogiou isso. Fazer festa familiar. E ser
tão divertido. Sempre.

Participara
uma vez. De uma destas festas. Era o aniversário dela. Veio junto com a outra
amiga para prestigiá-la. E se transformaram em oito. Foi muito bom. Não
faltaram motivos para risos. A celebração se estendera pelo dia e entrara pela
noite. Uma festa. Este o termo correto. E achara maravilhosa. Códigos e referências
sem explicações necessárias. Risos e dados rascunhados – passado a limpo. Sem
aborrecimentos. Sem contratempos. Sem críticas maldosas. Sem mágoas. Sim. Ela
estava certa. Sempre era muito bom.

Nesta
noite não foi diferente.

O
convite partiu dele. O inverno chegou. Vamos celebrar antes que acabe. Com esta
informação do aquecimento global nunca se sabe. Todos riram. Convite aceito.

A
mesa estava em ordem. Tudo feito dentro do solicitado. Cada um poderia se
servir diante da sua preferência. O frio circulava com tranqüilidade. Lá fora
uma chuva leve dava um toque bucólico. Ela riu. Sempre se divertiu com este
termo.

A
modernidade permitiu que fosse tudo feito à mesa. Com todos em volta. Como um
banquete antigo diante das genialidades modernas. Não se precisou do ir e vir.
Tudo ficou disposto e exposto. Aquecido. Aquecendo.

Não
se fugiu à rotina. Como assim – acabou. Então substitui. Faz assim mesmo. Vai
ficar bom. Ela não gosta de alho. Ela não come bem passada. Ela só quer mal
passada. Este queijo, não. Acha até bonito. Mas não gosta. Este sim. Sim. Deixa
que sirvo. Ponha mais para cá. Agora ficou longe dela. Quase derramou. Não, não
sujei nada. Quem levantar vai ter que pegar também mais isso. A família
denuncia de onde veio. Sim. Até ele. Veio do lado oposto. E já está igual. Ninguém
quer levantar. Deixa – eu vou. Então ótimo.

O
cheiro do queijo derretido se misturava aos cheiros dos molhos da carne e aos
pães selecionados. O vinho circulava de mão em mão. Os lugares escolhidos indicavam
as preferências de cada um.

Elas
estavam lindas. Como sempre. Participativas. Integradas – muito mais do que
integrantes. Eles se compartilhavam e partilhavam da história de cada um –
entrelaçada com a do outro.

A
música escolhida fora nenhuma. A voz de cada um parecia fazer o coro perfeito. A
batuta era erguida ao som de talheres e facas. Tudo em total harmonia com os
estalinhos do óleo nos quadradinhos de carne.

O
cheiro doce do chocolate veio fazer o contraponto. Deliciou. Acolheu. Fez o
grand finale. Em alto estilo.

Foi
ai que lembrou a observação dela. Da reunião a seis. Sem precisar de suportes
para ter graça.

Olhando
para eles – se sentiu orgulhosamente feliz. Muito feliz. E muito orgulhosa. De
si mesma. Tivesse uma medalha por perto e já teria se atracado a ela. Assim
estava se sentindo.

Orgulho.
Eis mais um sentimento com múltiplas leituras. Não permite solidão. Ou
isolamento. A vaidade até pode ser ato parcialmente isolado. Pode ser dividido
apenas com o espelho. O orgulho, não. Em especial este tipo de orgulho. Sempre
vem do outro. Ou pelo outro. Como um presente doado. Perseguido de forma
direta, mas conquistado de forma indireta. Não vem de si para si.

Foi
o que aprendeu naquele momento. Observando-os. Sentindo a mistura de cheiros.
Diante do riso festivo de cada um. Da intimidade positiva em volta de uma mesa.
Onde o simbólico se fazia quase táctil de tão factual. Compreendeu
perfeitamente. A importância de códigos bem estabelecidos. Seja qual for a
relação. Para que possam ser corretamente lidos. E espontaneamente respeitados.

Até
lembrou a velha frase. In vino veritas. Podia ser. Mas era verdadeira a visão.
A sensação. Não era fruto de uma embriaguês. Era fruto de uma realidade. Eles
eram adequados ao tempo e às funções. Felizes. Afetuosos. Éticos e bem
sucedidos. Com a idéia coerente de ambiente. De presente.

Era
uma noite fria de um sábado de inverno. E o anunciado aquecimento global se
fazia verdadeiro e instalado. Estava todo ali – na sala. Em volta da mesa.

Riu
tranquilamente aquecida.

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