SPA…triada

Decidiu.
Será este final de semana.

Ganhara
de presente. Os cinco se juntaram e deram a ela. Vai passar o dia lá. Sendo cuidada
e mimada. É só escolher a data. Adorou.

Telefonou,
agendou. Comemorou feliz. A decisão própria combinava com a vaga oferecida. Em
acordo. Fuso horário acertado. Era só deixar acontecer. Não teria participação
efetiva. Eles lá saberiam a sequência a ser cumprida. Enfim. Riu.

Acordou
e já foi logo preparando a alma. O espírito. Ou o humor, para ser mais ampla. Do
corpo eles lá dariam conta. Ao menos este era o combinado. Através do corpo –
liberar a emoção. Quase uma filosofia.

Um
dia inteiro a fazer nada. E a aguardar as ordens.

O
lugar era especial. Massagens de todos os tipos. Esfoliação. Relaxamento. Imersão
em ofurô. Pétalas de rosas vermelhas. Margaridinhas. Chazinhos. Toalhas aquecidas. Uma delicadeza.
Música transcendental. Perfeito.

Um
aroma suave percorria desde a salinha de espera até os ambientes fechados. Qual
um labirinto misterioso. Como devem mesmo ser os caminhos que liberam a emoção.
Por um aroma, vai se chegando diante de portas – fechadas. Abertas – revelam o
dinamismo a seguir. Interessante. Foi esta a primeira palavra que pensou. Talvez
desde o momento que acordou. Até se surpreendeu. Parecia mesmo há algum tempo
sem pensar. Interessante de novo.

E
de porta fechada a porta aberta – foi se descontraindo. Feixe muscular por feixe
muscular. Ela até avisou. É muito tensa. Mas estou desfazendo os nós. Desconsiderou.

Estava
ali para ficar desconcentrada. E ia cumprir a proposta. A tal filosofia que a
entrada sugeria.

Foi
nesse vai e vem que notou a luz vermelha do celular. Mensagem à vista. Resolveu
verificar. Que chamado, externo, a re-localizava no planeta.

Ele
se desculpava. Queria ter falado ontem. Mas os afazeres práticos e nada agradáveis
o tinham impedido.

Resolveu
se divertir. A desconcentração permitia. Avisou. Desculpas mis. Plebe rude. Estou
sendo esfoliada e me dirijo no momento para um ofurô. O mundo pode esperar. O ofurô
não. Nem eu. Risos. Assim. Objetiva. Divertida. Leve. Mas séria. Sem som. Só com
as letras. E enviou a mensagem.

A
massagem prosseguia. Novamente a luz vermelha. Mais uma vez decidiu ler o que
de lá vinha. Afinal – o mundo não a esquecera lá dentro. Nem ela esquecera o
mundo lá fora. Riu. A linha podia até ser tênue – mas existia. E se e quando
existe – sempre pode ser pulada. Já começou a se sentir incorporada ao Lugar. Estava
se transformando numa verdadeira filósofa de esfoliações e ofurôs. Se parabenizou.

Mas
desta vez foi impossível. Não conseguiu manter a seriedade absortiva. Expressar
ausência de si mesma. Fingir que estava apenas ali. E que o mundo tinha
acabado.

Ele
respondeu. Desculpa a nobreza. Mas estou aqui também. Esfolado. Com um furuncô.

Riu.
Alto. Assim. De repente. As pétalas de rosa na água quase voaram. A mocinha que
esfoliava tomou um susto. Perguntou por cócegas. Com a resposta negativa –
iniciou alternativas. Se queria mais luz. Menos luz. Não sabia bem como lidar. Com
o riso. Vai ver fosse um pranto e saberia o que fazer. Isso é comum. Rir é
incomum. Seja onde for. E muito mais numa esfoliação. Vai ver até culpou o
Marquês. Mas enfim. Riu alto. Seguidas vezes.

A
mocinha continuou o que fazia. Porém com mais cautela. Dava para sentir isso
pela fala. Pelo gestual. E pela súbita pressa. Até temeu uma expulsão. Onde já
se viu. Rir num lugar de silêncio. De faixa zen com alfa. Ai sim. Deu até mais
vontade de rir. Mas se controlou. Ou tentou.

Avisou
a ele. Você está desconcentrando a minha desconcentração. Nova resposta. Novo riso.

Desistiu.
Não ela. A mocinha. Encaminhou para outra sala. Mais uma porta fechada se abriu. Um divã
estava lá em meio à meia luz. Orientou alguns momentos – sozinha. Escutando a música
e sentindo o aroma. Colocara um aroma relaxante.

Ficou
lá inspirando o tal aroma. E rindo. Quando acabou o dia – estava calma. Muito calma.
Vai lá saber. Qual das massagens foi benéfica. A de fora. Ou a de dentro.

Ele
foi buscá-la. Desceu com ele de mãos dadas. Contou o que aconteceu. Riram juntos.

A
chuva fina que caía lembrava que o mundo tem múltiplos e misteriosos encantos.

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    • peter
    • June 28th, 2009

    sopa no mel, já vi… a vida é assim, tambem tem coisas boas, não só trabalho, Leda Maria….estou entendendo alguns textos mais por dentro, sabe…bjs, tudo bom…

    • Anonymous
    • July 2nd, 2009

    Eu quero um SPA desse para massagear o lado de fora e, principalmente, o lado de dentro.abraçosssssssss

    • Anonymous
    • June 28th, 2009

    Adorei essa crônica! Muito bem escrita – pra variar -, principalmente naquela parte em ela que fala de "feixe muscular por feixe muscular".Morro de inveja!Mas, me desculpe a intromissão, o que me causa espécie e me deixa fulo da vida, é que um cretino qualquer se ache no direito de interromper a concentração de uma escritora como você para criar ruídos de pequenez tais com furunco quando a sua nobreza só fala de ofurô.Eu poderia até assimilar EEUU 3×2 BRASIL. Poderia, até mesmo, engolir com esferas SANTO ANDRÉ 4×1 VITÓRIA, mas uma heresia dessas NUNCA!!!!!Beijos,Lêda! E que Deus sempre lhe guarde de tamanhas mediocridades.E.C.

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