A Travessia da Letra Viva

Ela
era desse jeito. Um pensamento – cérebro a dentro  –  e o dia
a fora a tentar  entender. O tal
pensamento.

Tudo
começara quando ela lhe disse uma frase. Talvez mais.Quase um relato. Não
justificável. Incoerente. Até desnecessária.

As
horas passavam. Ela progredia com a rotina. Mas um intervalinho que surgisse lá
vinha o pensamento invasor. Talvez até mais autoritário do que invasor. Não dava
descanso enquanto não solucionava. Como um inseto em busca da luz. Até ria
quando assim definia.

Mas
se o pensamento era autoritário – obedecia. Submissão ao raciocínio sempre fora
sua tendência. Não desprezava idéias formadas. Não cancelava observações
afoitas. Creditava sabedoria ao que irrompia sem muita solicitação.

Mas
manteve o bom humor. Cumpriu o estabelecido. Seriedade e risos adequados.

Foi
nesse vai-e-vem de busca que voltou para casa.

No
percurso discursou soluções. Abstraiu linhas divisórias. Contracenou consigo
mesma. Usou de artilharia pesada. Fantasiou até estratégias de deserto. Mas dirigiu
com tranqüilidade. Sem pressa. Pressa mesmo quem teria que ter era as
instâncias. Mentais. Ou emocionais. Ela apenas dirigiu. E fez as suas
suposições. Confiante que numa delas estaria o fio condutor. Não de um choque. Ou
de um curto circuito. Mas de uma posição definida ao final da acareação.

Encontraria
a solução conveniente. E seria claramente eficiente. Completou a sequência de ente
– com consciente e inconsciente. O Mestre austríaco não escapou. Foi chamado ao
banco de jurados. Ou de condenados. Nesse momento – riu. Eis um Lugar onde
sempre o Mestre basculava.

Quase
uma questão inglesa.

Chegou
de volta em casa. O porteiro a aguardava.

Entregou-lhe
um pacote. Pelo selo compreendeu – vinha de longe. Bem longe.

Ai
tudo mudou. Nada mais de pensamento. De fantasmas. Ou de mestres. A Áustria ficou
em seu devido Lugar. Bem longe. O cérebro desconsiderou as buscas. Os ingleses
ficaram para trás. Eles que resolvessem suas questões. Os tais entes
sequenciais se retiraram. Fio condutor – só do elevador que a levou para
dentro. Mais ou menos assim. Abrupta – eis a palavra perfeita.

Ele
avisara. O livro lhe será enviado. Queria que ela opinasse. Opinasse. Incrível.
Um poeta pedira opinião – dela. D’além mar. Enviou o endereço. Mas quase desacreditou
na remessa.

A
remessa existiu. Existia. Saíra da de lá. Fora empacotada. Selada. E assim atravessara
o Oceano. E estava ali. Fazendo mais uma travessia. Das mãos do porteiro para
as mãos dela.


foi entrando em casa e abrindo. A capa era bela. Objetiva.

Mas
entendeu o autor no momento que viu a primeira página. Depois da capa. E a
última página. Antes da contra capa.

Ali.
Sem nada escrito – um papel de cor azul.  Antecipando e encerrando as letras.

O
mesmo azul que ele relatara um dia. Sobre a cor dos papéis das cartas enviadas
de avião. Há tantos anos. Escritas até o final de um papelzinho azul. Em meio
às chamadas de combate. A guerra cortando as frases. O azul da letra viva numa situação
de possibilidade de morte. No passado.

Aquele
papel – na primeira e na última página. Simbólico. Silencioso. Colorindo um
tempo. Qual uma tímida biografia.

A
poesia já se expunha desde a página não escrita. Se fazia dona do texto em seu
silêncio. Em sua cor. Sóbria. Discreta. Delicada. E os versos – acolhidos – dando
relevo à emoção. Belíssimos.  

Tinha
que ser um Poeta. Só um Poeta.

Lembrou
do Santo filósofo. Ele afirmava. Não havia passado nem futuro. Só presente. Porque
é no presente que se fala. Seja do passado ou do futuro. Trazendo-os no tempo. Para
junto de si. Pela primeira vez ela entendeu completamente. O sentido. O significado.
A idéia quase concreta do Tempo. Perfeito.

Dentro
havia uma dedicatória.  No final ele
acrescentou. Desejo muitas felicidades. E muita inspiração para escrever com o
carinho e a inteligência com que o faz.

Lera
o que ela escrevera. De lá. De tão longe. Comentara. Elogiara. Assim se
identificara. E se aproximara.

Fez
um brinde gestual ao Poeta distante. Se sentiu presenteada – na acepção dupla do
termo. E prestigiada – na acepção egoica da palavra.

Obrigada.

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    • peter
    • July 3rd, 2009

    pois foi, foi quando lembrei o santo filosofo…vim reler…

    • peter
    • June 27th, 2009

    sensibilizado. bacio

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