Atendendo a Memória

Estava
sozinha. Era já final do dia. Trabalhara dentro do agendado. Atendera todas as
demandas que pode. Orientou. Escutou. Reclamou. Compreendeu. Recusou. Aceitou.
Defendeu. Proibiu. Acatou. Permitiu. Assim fora o dia. Igual a todos os dias da
sua rotina.

O
frio ainda estava confiante em seu próprio poder. E se mantinha cativo em salas
e alas. Ou autoritário. Dava no mesmo. Afinal ele que estabelecia ordens e
limites. Ele – o frio.  

Quando
encerrou as tarefas – voltou para casa.

Mal
tinha chegado. Ainda estava a decidir a outra rotina – escutou o telefone.
Até pensou. Acho que não vou atender. Vou deixar para depois. Agora tenho que seguir
uma ordenação. Se não eu que fico aqui desordenada e desarvorada.

Definitivamente
– não vou atender.

Foi
decidindo isso e pegando o telefone. Até atendeu rindo. Eis uma decisão
acirrada.

Era
ela. Atitude rara. Em geral nunca telefonava. Pelo menos para ela. Se servia de
mil desculpas. Mas vai lá saber por que – telefonou.

No
primeiro instante pensou no pior. E isso não era habitual. Este era o oposto
dela. Só esperava o melhor. Sempre. Podia atender ao telefone na madrugada –
mas sempre acreditando que viria do outro lado uma boa noticia. Já atendia
desculpando fuso horário. Como se recebesse apenas ligações do exterior. Ele até
ria dela. E ela ria dele. Ele sempre se assustava com o toque do telefone.  Quando a noticia era ruim – ela sempre tinha
uma expressão de decepção.

Mas
lá foi escutar o que ela queria falar.

Ela
avisou. Precisava lhe falar. Impossível deixar para outro momento.

Fiquei
lembrando muito de você hoje. Começou durante o almoço. De repente me
surpreendi. Só pensava no tempo que você morava ainda aqui. Lembrei das idas a
restaurantes. Das risadas que demos juntas. Tantas e tantas vezes. Das suas
gracinhas. Do seu jeito de minimizar problemas. E não mais parou.

Lembrou
daquela vez. Depois – da outra vez. Depois – daquele dia. Da idéia da viagem. Da
coragem – mesmo não sabendo onde se amparava. Das lojas onde comprava. Das mudanças.
Das diferenças nas escolhas. Nas trocas.

Ela
continuou falando. Parecia que para si própria. Por que discorria com tranqüilidade.
Não cobrava o retorno. Nem sequer o – estou escutando. Só falava. O
interlocutor auditivo ocupava um Lugar não bem determinado. Era um daqueles
velhos monólogos. Onde a platéia só suspira.

A
cada registro que ela desenhava – tentava localizar. Não no espaço. Não no
tempo. Era uma localização muito mais forte. Era muito mais interna do que externa.
Como se preenchesse páginas vazias – ou esvaziadas – a cada frase. Ou como se
tentasse preencher.

Com
a mudança houve lacunas.

As
citações dos acontecimentos não paravam. Falou sobre atos e fatos.

Lembrou
de alguns com facilidade. De outros com dificuldade. De alguns riu. De outros
fez silêncio. Partes vieram espontâneas na lembrança. Outras sumiram para
sempre do registro da memória. Não houve jeito. Ela até insistia. Lembrava até
a meteorologia do dia. Mas alguns se foram mesmo.

A
avó querida de uma amiga tinha uma frase para isso. O que fica no passado é
porque este é o Lugar certo de ficar, menina, o que fica no passado é porque
este é o Lugar certo de ficar.

Pensando
assim – se tranquilizou. E poupou esforços ao já tão esforçado cérebro.

Despediram-se
rindo. Quando ela desligou – ficou calada. Por algum tempo ficou ali sentada. Olhando
para o não-sei-onde. Em silêncio.

Concluiu.
Ou, melhor ainda, questionou.

Quantas
mãos escrevem a história de cada um. Quantas memórias se unem para compor uma biografia.
De quanto do passado é realmente manufaturado o presente. Em qual espelho se credita
a história. Qual o princípio da saudade. Ou do esquecimento.

A
memória. Eis um Lugar onde o egóico – até finge – mas não se sustenta. Eis um
Lugar onde a solidão não se inscreve como certeza. Para falar de si próprio é
preciso – verdadeiramente – escutar o que o outro fala. Só entendendo-se alheio
de si mesmo – pode –se atingir o dentro de si mesmo.

Foi
cuidar da ordenação da rotina. Não iria ficar ali – como antecipara – desordenada
e desarvorada.

Riu
quando se surpreendeu – quase – jogando um beijo em direção ao telefone.

 

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    • Paula
    • June 19th, 2009

    Lindo, lindo, passei hoje para dar uma olhadinha nas novidades e como sempre saio mais rica, sua cronica de hoje está maravilhosa, pura filosofia!!!
    Novamente te agradeço pelo tanto que você me proporciona,
    um beijo

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