Na Dança do Olhar

Era
momento de descanso. Muito descanso. Quase uma semana de folga. Lá estava junto
com ele. A fazer nada. E ainda melhor. A planejar nada. A vida apenas celebrada
como existência. Nada de horários. De fusões. De confusões. Só abstrações. Até
riu quando pensou isso. Sim. Abstrações. Iria se dedicar a abstrair.

A
proposta não era ortodoxa. Consideravam que o mundo lá fora sim – era ortodoxo.
Lá dentro era o mundo das escolhas. Escolhas dentro do prazer. Ético, mas ainda
assim – prazer. Sem restrições fúteis. Ou impedimentos banais. Podia definir
tempo e opção da forma que achasse melhor.

Quando
soube do estilo – aceitou o convite. De imediato. Há muito estava querendo algo
assim. Mas não imaginava que iria encontrar tão rápido. Alguém lá em Cima
realmente gosta de mim. Pensou enquanto – já lá – preenchia o cadastro.

As
acomodações eram ótimas. Andar alto. De frente para a cidade. Ao longe uma
serra emoldurava a engenharia. Uma parede de vidro circulava todo o espaço. Via
o mundo sem se mover.  Decidiu confiar
nos movimentos de rotação e translação. Riu. Introjetou a inércia. Dela. Se
auto-recriminou. E se auto-obedeceu. Nada de ficar juntando palavras. Isso
também gasta energia. Era uma dialética nova. Do silêncio com o mutismo. Riu.

Um
aviso servia de convite. Hoje em tal hora, em tal salão, jantar, luz de velas.
Música ao vivo. Bem vivo.  E dança. Um
festejo comemorativo. Uma data especial. 
Para celebrar os apaixonamentos. Os amoramentos. Os encontros. Foi logo
confirmando. Nós vamos. E ele já foi aceitando e rindo.

O
piso do salão estava recoberto com pétalas de rosas. Vermelhas. Podia ser um
gosto duvidoso. Mas a ideia fora delicada. A noite era dos pares. E os pares se
misturavam com pétalas e velas. Alguns tinham sua própria luz. Forte. Outros
mantinham uma leve chama. Mediana. Outros ainda precisavam se colocar perto de
alguma lâmpada. Ausente. Como se a presença física por si só pudesse dar conta
do que era proposto.

Muitas
vezes se esquecem de algo fundamental. Parceria e brilho são efeitos de um
processo – interior.

Mas
enfim. Eles estavam lá. Em meio a estas luzes prismáticas.

Dançaram.
Riram. Sorriram. Comentaram. Mas nada de profundidades. Só amenidades. Riram de
cada um deles mesmos. Riram até – e principalmente – da falta de motivos
sérios. O que é um ato bem próximo da perfeição.

Rir
da falta de seriedade é sempre mais forte que rir do excesso de gracinhas.
Assim pensou.

Ele
a olhou. Enquanto dançavam.  Sobre as
tais pétalas no chão. Um olhar difícil de traduzir. Ou dono de múltiplas
traduções. Extremista. Como o jeito dela. Sempre fora assim. Extremista. Mas
ali considerou impossível. Ser linear.

Foi
aí que ela lembrou o filme. Estava entre os escolheram para os dias de inércia.
Seria apenas o ato de assistir. Nada de pensamentos profundos. Ou discussões
teóricas. Só filmes assim. Inconseqüentes. Quase delirantes.

Mas
não teve jeito. Lembrou. No filme a personagem fazia um comentário. Sobre o
olhar dele para ela. Que olhava para ela já com o olhar acostumado.

De
repente começou a enumerar os vários tipos de olhar. Olhares cansados.
Sombreados. Desgostados. Enrugados. Disfarçados. Imitados. Seriados. Relembrou
o tal acostumado.

Quase
até virou um titulo de livro – caso estivesse a escrever algum livro. Esta era
outra das suas bizarrices. Queria até ter carro com micro acoplado. Ao
volante.  Sim. Porque sempre tinha um
livro em mente. Com título. Capítulos. Até subtítulos. Impressos. Publicados. E
já na prateleira. Do cérebro. Porque de lá nunca um só livrinho havia saído.

Mas
enfim. Ele não. Tinha um olhar acolhedor. Sempre que olhava para ela. Um olhar
entusiasmado. Olhava como se fosse pela primeira vez. Ou como surpresa. Ou como
olhar de feliz certeza.

Olhou
de novo para ele. Ficou feliz. Podia estar habituado. Mas nunca acostumado.

Decidiu.
Esse seria o título do livro. Sobre os inúmeros olhares. Continuou dançando e
rindo. Sobre as tais pétalas vermelhas.

Mas
observou um olhar interessante. O saxofonista.

Em
meio ao solo – ele olhou para eles dois. Fez um meneio de aprovação. Não pode
deixar de retribuir o meneio. Em direção a ele – mas em diagonal – ao mestre
austríaco. Riu.

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    • Cris
    • June 17th, 2009

    Lêda, linda esta "foto" do seu dia dos namorados. Desejo que você e Luiz sejam sempre aquele par que possui a sua própria luz. Forte. Beijos!

    • Anonymous
    • June 28th, 2009

    Lêda, obrigado por comentar o meu texto. Gostei do seu também. Leve, direto e gostoso de se ler. Parabéns. Beijos.

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