Jota Vai à Guerra

Não
era possível. Justo naquele dia. Inacreditável. Tantos dias para acontecer e
tinha que ser justo naquele dia.

Mas
decidira. Ia fingir que não estava acontecendo. Embora estivesse estampado na
face. Estava sim, acontecendo. Ou melhor, estava instalada. Instaurada. Creditada.
Debitada. E ela – irritada. Com este contra tempo e contra senso. Mas enfim. Não
tinha como modificar. Ao menos não tão rapidamente como desejava.

Lembrou
que era uma reação anual. Não sabia se agradecia pela anuidade ou se rebelava. Por
ter que comemorar. O tal mais um ano.  Mas
não deixava de pensar – justo naquele dia.

Mas
era verdade. Todos os anos. Desde que viera morar na cidade escolhida. Todos os
anos na mesma época. Só esquecera de conferir a data e a hora. Deveria ser
assim. Cronometrado. No dia tal. Em tal data. E na tal hora. Como prazo de
validade de latinha de conserva. Expira dia tal. Expirar. Palavra que a deixou ainda mais
rebelde. Inspirar e expirar.

Ato
simples. Automático. Nem se percebe. Menos naquele dia não sabia o que era mais
difícil. Expirar ou inspirar. E ainda havia o espirrar para compor a tríade.

Sim.
Estava acometida da gripe sazonal. Podia até ser um termo elegante. Mas a gripe
nada tinha de elegante.

E
para completar – a voz. Qual voz – poderiam perguntar os mais invasivos. Nada de
voz. Sumira. Até o pensamento era mais audível do que a fala. Abria a boca. Fazia
aquele enorme esforço para respirar. Para tentar com que uma só cordazinha
vocal funcionasse. Uma que fosse. Mesmo que saísse estranho. Nada. Nem uma só. Um
eterno murmúrio. Serviria para nome de filme. Mas a realidade era uma só – estava
angustiante.

Mesmo
assim foi cumprir o combinado.

Avisou.
Pelo recadinho escrito. Estou já na escadaria. E ainda acrescentou – por escrito
– risos.

Pareciam
amigos antigos. Um reconhecimento. Já se apresentaram rindo. Ele jovem, alegre.
Centrado. Polido. Atencioso. E vale destacar – com voz. Sim. Um verdadeiro e
completo comunicador.

Não
vai se dizer que ela não se esforçou. Seria uma injustiça. Se o justo era que
fosse naquele dia – o injusto seria negar que não se esforçara. Esforçou-se. Falou.
Desculpou-se. São surpresas das mudanças bruscas de temperatura. Ele concordou.

Ela
descobriu que respirar pode ser acessório de luxo. Pode ser dispensado algumas
vezes. E por alguns segundos se deu ao imposto e irrevogável luxo de escutar e
falar sem um só gole de oxigênio. Parecia já uma maratona.  Contou até a própria história.  A história do encontro. Da parceria. Do filme
que assistiram ainda sem se conhecer. E como casaram.

Depois
– escutou. Ele tinha muitos relatos fortes. Curiosos. Interessantes. Familiares.
Informativos. Até relato médico. Discorreram sobre joelhos e jogos.

Tivesse
ela um pouco só mais de voz e explicaria que aquele deveria ser o dia da letra
jota. Justo. Joelho. Jogos. Justiça.  Até
o nome do filme era com jota. Mas achou desnecessário. Gastaria muitas letras
por causa de uma. Pulou esta parte. Não sem antes ficar preocupada com a baixa oxigenação
cerebral – dela. Já devia estar causando seus efeitos. Haja visto a celebração
que ia propor para uma letra. Ainda bem que sobrou um pouco de bom senso. Ou de
oxigênio.  Para manter o silêncio.

Ele
chegou e saíram todos juntos para jantar. Ela pensou rapidamente – mas bem
rapidamente – sobre mais estas letras jota. Mas a esta altura já não falava
mesmo. Ele – sempre gentil – fez as vezes dela. E o jantar transcorreu com
alegria e confiança. Onde cada um revelou o que achou necessário. Com um off e
com um on – para que nada se perdesse ou se ganhasse de desnecessário.

O
riso correu solto. O que começara na casualidade de um texto lido – se estendeu
na concretização de uma amizade incondicional. Estava feita a celebração. Com voz.
Sem voz. Com oxigênio. Sem oxigênio. Até com jotas. Riram quando se
encontraram. Riram quando se despediram.

No
caminho de volta para casa, abraçada a ele – entre febre, espirros e mais
alguns jotas – lembrou da avó daquela amiga. Ela repetia muito. A força de uma
amizade se mede pela alegria do encontro, menina, a força de uma amizade se
mede pela alegria do encontro.

Procedia.
Procede.

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    • cami
    • June 9th, 2009

    Saudades de vc. Um beijo grande

    • Anonymous
    • June 9th, 2009

    Justiça seja feita. O Jeito é agradecer, mesmo. Momentos assim Jamais serão esquecidos. O mês de Junho, ainda no começo, foi coroado com Jubilo, num jantar. Na cidade grande, em meio ao corre corre, é possível não se sentir um João-Ninguém. Mas só consegue proporcionar a outrem este feito quem é muito Jeitosa(o). Houve juntura. Não houve necessidade de Jurar Juras de amizade, com sangue ou com catchup. A Jogada de mestre foi deixar o coração fazer Jus ao ingrediente máximo da amizade… o sorriso sincero, Justo e fiel.Que Jeová os abençoe.Abraçossssssss

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