Espaço Vocal

O
dia estava se encerrando do jeito que começou. Frio. Muito frio.

Acomodei-me
o melhor que pude. Uns entravam tremendo. Outros bem agasalhados já iam
desfolhando os excessos. Outros ainda pareciam não entender o que acontecia. Com
a meteorologia.

Mas
o tempo ainda não estava comprometendo o espaço. Podia-se entrar e sair sem se
sentir diante da incerteza. Se conseguiria ou não. Desta vez sim. A certeza de
saída ou entrada estava garantida. Era opcional. Não impositiva.

Os
lugares estavam vazios. Havia muitos assentos à disposição. Corredores livres para
circulação.

Era
surpreendente. De ver. Ninguém sabia aonde ir. Onde sentar. Cada um que entrava
– parava. Subitamente. Como se colhido por uma surpresa – paralisasse. Olhos bem
abertos. Tivessem pelos e estariam ouriçados. Mas as mãos faziam este papel. Se
agarravam aos suportes e olhavam. E ficavam concentrados nos assentos – vazios.
Como se temessem ofertas. Como se só soubessem lidar com faltas. Ou com imposições.
Ou, vai ver, com competições. Difícil entender.

 Escolher simplesmente passara a ser um ato de
preocupação. Se não era obrigado – não sabia como reagir. Foi o que pareceu.
Não teve um só que entrasse e rápido se decidisse. O olhar circulava pelo
espaço. Delineava os assentos. Passava pelas poucas pessoas. Como se buscasse uma
temeridade. Precisavam de um tempo. Para que – desconfiados – sentassem. Não
sem olhar para trás. Ou para os lados. Incrível.

Foi
olhando as pessoas diante do excesso de lugares vagos – que me lembrei dela.

A
lembrança veio de repente. Mas não à toa. Controlei o riso. Naquele momento
acontecia o oposto. Não pude deixar de concordar com a minha avó. As lembranças
surgem também nas diferenças, menina, as lembranças surgem também nas
diferenças.

Uma
manhã de começo de semana. Estava muito atrasada. A reunião não podia ter
desculpas. Tinha que acontecer. Entrou no percurso dos trilhos. Concluiu que
seria a forma mais rápida. Sem trânsito. Nem semáforos. Mas descobriu rápido.
Não era um gênio. Não só ela teve a idéia. Isso ficou claro de imediato. Talvez
toda a população. Mas enfim. Continuou o que havia decidido.

Surgiu
uma dificuldade. Uma explícita dificuldade. Até um obstáculo – poderia se
dizer. Não era filosófico. Nem analítico. Era assim mesmo. Objetivo. Material –
para ser bem determinante. Cada vez que tentava sair, vinha de volta. Uma
parede humana – assim mesmo que denominou – uma parede humana a empurrava de volta.

Na
segunda vez que voltou de ré – decidiu. Agora chega. Ergueu a cabeça.
Agarrou-se à bolsa. Firmou os pés. Fez olhar de intimidação. E não conseguiu.

Chegou
à terceira parada. Terceira em relação a que deveria ter saído. Já irritada – optou
por uma atitude objetiva. Repetiu a anterior. Firmou os pés. Fez de novo olhar
de intimidação. Agarrou-se à bolsa. E deu um grito. Um grito. Daqueles de
comercial de filme de terror. Assim me descreveu. Um longo e fino grito. Em
meio a todos. Fez-se um vácuo. Todos se afastaram. E olharam para ela. E para trás
dela. Talvez tentando descobrir causa e conseqüência. Nada viram. Mas se
afastaram. Sobrou até espaço.

Ela
saiu. Cabeça erguida. Com tranquilidade. Só encerrou a possível carreira de
soprano quando se certificou de estar fora. E pisando em terra firme. Daí não
resistiu. Com atraso e tudo – encostou-se numa parede próxima. Riu. Muito. Mas
se apressou em sair. Entrou num taxi e voltou para onde deveria ter já chegado
há horas.

Foi
em meio às lembranças que notei. De repente – um olhar demandante dirigido a
mim. Ela veio e me disse – licença. O lugar ao meu lado estava vago. Como tantos
outros. Quando me acomodei melhor para ceder – também melhor o espaço – ela comentou.
Vou sentar a seu lado. Está muito vazio. Estranho. Pode ser perigoso. Melhor sentarmos
juntas. Q
ualquer coisa – nós duas gritamos alto. Bem alto.

Não pude deixar de rir. Se esta nova postura for contagiosa – uma nova
orquestra regida por trilhos poderá ser criada. Mas concordei. E me calei.

Chegamos silenciosas ao destino. Ainda bem.

Conclui – vou relatar isso a ela. A ela. Sim.  A provável responsável por este – movimentado – Conservatório.

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