Inauguração Precipitada

Acordou
atrasada. Não dava mais tempo para a maioria do planejado. Nem entendeu o que
tinha acontecido. Afinal, se tinha uma atitude que ficava sempre de fora era
esta – atraso. Não faltava quem não fizesse gracinhas com sua questão de
horário. Vivia adiantada.

Mas
enfim. Se não dá – não dá mais. Concluiu e foi tratar de organizar as rotinas
opcionais. Ainda deitada decidiu que iria pôr em ordem o que estava pendente. Certo.
Ficava assim formalizado o dia. Com a nova agenda pronta na memória – levantou.

Abriu
a porta do quarto. Que ficara fechada toda a noite. Quase riu. De susto. De surpresa.
De vez em quando assim reagia diante do inesperado. Ria. Mas desta vez riu só a
metade. Um meio sorriso – digamos assim.

Dormira
num país tropical. Acordara num dos Polos. Não importava qual. Mas num deles. Podia
ser o do amigo dos presentes. Ou dos bichinhos a rigor. O frio deveria ser
igual – ao que sentia naquele momento.

Até
olhou para trás. Conferiu. Sim. Era o quarto dela. O apartamento dela. Pelo
vidro da porta do terraço teve mais uma certeza. Sim. Era a cidade dela. Evitou
se beliscar para garantir estar acordada. Não era necessário. Tudo conferia. Só
a temperatura estava discordante.

Agora
entendera o motivo do atraso. O corpo se atrapalhou. Vai ver com o frio súbito entendeu
como também uma mudança de fuso horário. Sempre achou o corpo meio que esquecido.
Agora já estava achando o corpo intelectual demais. Ou voluntarioso. Estava a
tomar decisões – sozinho.

Encerrada
esta primeira etapa – prosseguiu com o que o atraso e o corpo decidiram por
ela. Com algum descrédito – tentou não ser exagerada. Entre um tira-coloca-tira
casacos – optou por um estilo meio-termo.

Esquecera
que nesta vida isso é um erro grave. Ao menos ela assim registrava. Nunca o
meio termo se adequa a seja lá o que for. Antes os extremos que os meios
termos. E sempre pensara assim. Criticava severamente quem fumasse cigarro light.
Ou bebesse refrigerante diet. Ou ingerisse bebidas alcoólicas com excesso de
gelo. Bege sempre fora a cor que lhe provocava dúvidas. Até do caráter do portador.
Achava que ou era para ser só culpa – ou para ser só prazer. Ou só cor – ou só negro.
Mais ou menos assim. Quem passasse a vida em tons pastéis não entendia de vida.
Nem de razão de vida. Se estava certa ou errada não importava. Importava a
apologia dos extremos.

E
agora essa. Justo ela – num amanhecer como aquele – escolhera um meio termo. Enfim,
tentou acreditar no acerto mais do que no erro. Nada de precipitações. Já estava
até gostando de ter se atrasado. Persistiu no meio termo de roupa e de idéias.

Foi
para o Banco. Fazia tempo que não a encontrava. A Gerente. Foram muito amigas numa
época. Logo que veio morar na cidade. Depois com os horários da rotina cada vez
mais estreitos – os encontros se fizeram cada vez menos frequentes. Falavam ocasionalmente
pelo telefone. Foi um re-encontro agradável. Riram do passado. Dos comportamentos
do passado. E tudo ficou parecendo ainda mais passado. Até fez um gracejo. É sempre
assim. Quando se fala muito do ontem – o ontem fica muito mais distante ainda. Riram.
O que tinha que ser resolvido – foi resolvido.

Foi
quando teve que descer na Avenida. Desceu tranqüila.

De
repente olhou. Assim. Quase à toa. Para o termômetro do poste. Que fica no
centro da Avenida. Nas chamadas ilhas. Olhou para a ilha. Leu o número
registrado no termômetro. E quase deu um pulo. Só não deu porque as pernas
estavam já congelando.

O
termômetro sempre marcava a mais. Lógico. Com a quantidade de carros e ônibus passando
– alterava a leitura sempre para mais. Para mais. Então ainda era menos do que
o registro informava. Estava escrito. Em números claros. Assim. Branco no
preto. Nada bege. Oito graus. Oito graus.

Podia-se
até dizer que tudo estava sob controle até aquele momento. Oito graus. O corpo
leu. Entendeu. E exagerou. Começou a tremer. Abraçou-se ao lencinho do pescoço
e ao casaco como se os transformassem em irmãos. Xifópagos. Grudou-se neles.

Numa
trêmula virada de cabeça – viu-se diante de uma lojinha. Vendiam cachecol de lã
e luvas de lã. Não teve dúvida. Juntou o virar trêmulo da cabeça, os dedos trêmulos
e apontou com a voz trêmula o que precisava. A mocinha trouxe os pedidos.

Agora sou uma prima dos agasalhos. Digamos assim. Não mais irmã xifópaga. Comentou isso. A mocinha
nada disse. Mas fez um olhar estranho para ela enquanto recebia o pagamento. Talvez
até amedrontado. Mas ela desconsiderou. Sentindo-se melhor – pensou. Que venha
o frio. Em qualquer tom. Com ou sem exageros.  Agora estava mais adequada para prosseguir. Com a tal agenda opcional do atraso.
Sorriu feliz.

Estava
calorosamente inaugurada a Temporada de Inverno.

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    • roberto
    • June 4th, 2009

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