Lapsus Linguae

O
dia estava agitado. Agenda completa. Sem falar nas intercorrências. Atividade
sem intercorrência não é atividade. Porque não há a menor possibilidade. De se
levar o dia sem que ele – o dia – traga alguma intercorrência. Isso já deveria
constar em autos. Em contratos. Até em decretos. 

Mas
enfim. Tudo parece ficar mais leve numa sexta-feira. Pelo menos para alguns.

Assim
que entrou telefonou – para ela – avisando. O aviso foi repassado.

Vai
chegar uma encomenda para mim. Soube agora. Por favor, quando chegar me avise. Assim.
Com toda a calma. Não sabia o que era. Por isso mais não podia detalhar. Apenas
avisou.

E deu continuidade na sua rotina. O dia foi passando. Esqueceu da encomenda.
Esqueceu do aviso. Não teve o ócio necessário para o exercício da expectativa. Muito
menos para o da curiosidade. Continuou com as tarefas.

De
vez em quando lembrava. Hoje é sexta feira. E ria com tranqüilidade. De si para
si.

Sexta
– feira. Há um tempo deixara de comunicar isso ao mundo. Era até engraçado. Já acordava
avisando ao mundo. Hoje é sexta-feira. A ele sempre enviava cedo o recadinho. Hoje
é sexta-feira. Depois concluiu que era uma comemoração dela. Não tinha que sair
avisando. Afinal – todos tinham lá seu calendário. É
verdade. Festejo é da ordem da individualidade. Mesmo se for num grupo- é cada um
com sua idéia do festejo. Mesmo que compartilhando. Calendário é particular. Não
é uma divisão social. Ou uma soma. Muito menos uma multiplicação. Nessa hora até
riu. Decidiu parar com a calculadora. Se não era para ser partilhado – também não
tinha por que ficar ali construindo pequenos cálculos. Ela então. Era de rir. Ou
para rir. Mal sabia somar dois e dois. Sempre odiou contas.

Vai
ver por que era sexta-feira. Riu.

Enfim,
foi em meio às tarefas, contas e calculadoras que a cena se efetivou.

O
corredor era largo. Longo. Piso branco. Paredes brancas. Uma porta de vidro
separava as alas de espera e de circulação. Digamos assim. Em meio ao corredor
um balcão. Também branco. A luz entrava por janelas amplas de vidro. O dia
estava chuvoso. Frio. Cada um se protegendo com agasalhos e cachecóis. Um ou
outro respondia uma dúvida aqui. Outra ali. E esperavam as deliberações. Também
digamos assim.

Ela
veio. Da ponta do longo corredor. Que ficou parecendo ainda mais longo. Veio caminhando.
Com uma braçada de rosas vermelhas. Dentro de um lindo vaso de cristal. Envoltas
em papel transparente. Um belo laço vermelho arrematava o vaso e as flores. Um lindo
e enorme arranjo. A desfilar pelo longo e largo corredor branco. Carregado por
ela.

Ela
comentou – caminhando. Eis a tal encomenda. Que enviaram para ela. Quando
vi as flores chegando – pensei que fossem para mim. Mas qual nada. São para
ela. Li o nome no envelope do cartão.Foi ai que lembrei o aviso da tal encomenda. Que chegaria. Chegou. Deveriam
ser para mim. Mas são para ela. E ergueu um pouco as flores enquanto – sorrindo – dizia e repetia. Junto
com as sobrancelhas e um olhar ambíguo.

O
tempo muitas vezes se faz um reflexo. Talvez um reflexo medular. Primeiro o
ato. Depois a compreensão. Foi tudo muito rápido. Ela falou. De pé. Caminhando.
Assim. Perfeito. E – logo depois – já era outra cena. Teve aquele lapso de
tempo. Até que todos compreenderam.

Ela
escorregara. No momento que falou e ergueu um pouco o arranjo. No longo e largo
corredor branco.

Por
cima dela – deitadas – estavam as rosas vermelhas. A água. O laço. O vaso. Assim.
 Como uma cena desorganizada daquele
filme dos irmãos do Norte. As rosas espalhadas. Apenas a água parecia se divertir
na fuga do continenti. Brincava por entre a roupa e os cabelos dela.

Um ou outro sorriu. Todos correram em auxílio.
As flores foram devolvidas ao
lugar onde estavam.
Uma nova água veio fazer parceria ao vaso.
O laço – procede – só ele ficou
sem solução.

Ela se secou com toalhas rapidamente trazidas. Sem maiores nem
menores consequências físicas. Até esboçou um risinho. Menos ambíguo que o
olhar. Talvez.

Diante
da cena composta e recomposta – lembrei da minha avó.

Sempre
fazia um alerta. Escorrega-se muito mais pelo que se pensa do que por onde se
pisa, menina, muito mais pelo que se pensa do que por onde se pisa.

Esta
foi a primeira frase que me ocorreu. Veio de imediato.  Mas nada falei. A situação dispensava
acréscimos teóricos. O que tinha de prático em si já era suficiente. Só pensei.

Enfim.
O dia acabou. Comemorei a sexta-feira.

Desta
vez – ou como quase sempre – não pude deixar de sorrir em homenagem ao Mestre
austríaco.

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