Como é mesmo o nome…

Uma
queria explicar. A outra queria entender. E as duas queriam lembrar.

Ela
comentou. Nunca choveu nesse período aqui. Agora é só chuva. Nem está frio. Mas
a chuva está desobediente. Nada de boletim meteorológico. E a vida parecia que
ficava grudada no solo. Quando chove – tudo está sempre parado. O asfalto
parece segurar os carros. Os trilhos parecem agarrar o metro. Só as pessoas
caminhando fogem à regra. Correm e correm entre calçadas e semáforos. Esbarram-se.
Cruzam. Desviam. Rápidas. Movimento acelerado.
Interessante.

A
outra continuou. Amanhece com chuva. Anoitece com chuva. No intervalo mais
chuva. Até riu deste comentário carregado de redundância. Na hora quis até
comentar sobre este efeito Linguístico. Mas a palavra faltou. Deixou para lá. E
conjeturou. Quem sabe quando o frio vier – melhora. Antes frio do que chuva. Bom.
Chega de falar em chuva. Melhor descermos logo. Deve estar cheio nesta hora.  

Desceram
para o almoço. Atrasadas e ligeiras. O tempo voa quando não queremos. Quando a
gente tem pressa – ele fica sossegado. Mas enfim. Não dá só para fazer
críticas. Tempo é tempo. Chuva é chuva. Melhor uma adaptação. Eis dois casos em
que a reclamação fica improcedente.

Ela
foi descendo e falando. Preciso comprar uma bota. Duas. Vou comprar uma marrom
e uma preta. De cano alto. Com esta chuva não tem conforto melhor. E fica-se muito elegante.

Foi
exatamente neste comentário que tudo começou.

Ela
respondeu. Comprei uma muito bonita. Preta. Verniz. Linda. Cano alto. Sim. Foi
naquela loja. Aquela. Até lhe dei uma blusinha de presente. Sim. Em seu
aniversário. Tem naquele shopping. E naquele outro também. A loja. Não consigo
lembrar. O nome da loja. Nem daquele outro shopping. Fica perto da casa dela. Parece
que estou vendo. A loja. O shopping. E a bota. Só tem lá. Não sei como o nome
me fugiu. Da memória.  E que fuga. Nem uma
letra parece vir para ajudar.

Ela
respondeu com calma. Aparente. Rindo. Eu sei qual é. Sim. Você me deu a blusa. Ficou
pequena. Tive que trocar. Fui naquele shopping novo. Foi inaugurada uma filial
também lá. No shopping novo. Já disse. Sim. Também não lembro o nome. Fui no domingo.
Encontrei com aquela sua amiga morena. Que trabalha naquela Clínica. A morena. De
cabelos longos. Não lembro o nome dela. Mas você sabe quem é. Ela até emagreceu
muito nos últimos meses. Você até falou sobre isso. Que tinha sido uma dieta
rigorosa. Não lembra. Tem que lembrar. Você também trabalhou com ela. Ela
estava lá comprando umas saias. Até conversamos um pouco. Ela perguntou por
você. Mandou beijos. Pediu para você ligar para ela. Esqueci de lhe falar. Sim.
Só rindo. Não lembro o nome. Da loja também. E não lembro o nome do shopping.

Bom.
Vamos logo almoçar. Hoje a agenda está cheia. Não dá para ficar de vassoura na
memória. A poeira que fique lá.

Riram.
Um riso contido. Continha uma vontade. De lembrar logo o nome. Do raio da loja.
E o nome daquela magrela. Sim. A paciência parecia ter ido embora. Junto com os
nomes. Ele, se soubesse, ia logo fazer gracinhas. Ia dizer que ia tatuar em meu
braço. Os nomes. Sim. Muito engraçadinho. Deixa encontrar com ele. Sim.

Bom.
Mas vou torcer para lembrar. Do nome dele. Do motivo da reclamação. E até das
gracinhas dele. No dia que o encontrar.

Agora
quase engasguei. Tem razão. Só rindo.  

Acredite – vem tudo no consciente. Até palavrão. Palavrinha. Só não vem os nomes certos. E isso não é o pior.
Queria tanto saber se é a Loja que estou pensando.

Bom.
Diga então o nome da que você está pensando. Quem sabe é esta. Ou tem uma
sonoridade parecida. E acabaremos por lembrar o nome correto.

Olharam
uma para outra. Talheres nas mãos. Bandejas diante delas. Crachás em cima da
mesa – ainda bem. Colegas e amigos passando. Olhando. Cumprimentando. Saindo. Chegando.

Ela
começou a rir. Ela deu sequência. Riram. Riam. Muito.

Ela
não podia dizer o nome da que estava pensando. Para ver se era o nome que a
outra estava pensando. Simples. Muito simples. Não lembrava o nome.

Chegaram
enfim a um acordo. O verão não demora. Melhor pensarmos em sandálias. Qual loja
você comprou aquelas sandálias tão lindas. No verão passado.

A
resposta veio rápida. Tal Loja. Em tal shopping tem. Naquele outro shopping
também.

Era
a das botas. Eram os shoppings.  Nem conseguiram
terminar o almoço. Rindo – subiram as escadas de volta.

Viva
o verão. Com botas. Sentiram-se salvas. Desta vez.

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    • lia
    • May 31st, 2009

    Voce é o máximo!!!!me sent ina mesa ao lado ouvindo a conversa e agoniada para lembrar o nome…..

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