Quarteto em Dó Maior

A
discussão parecia séria. Elas falavam e falavam. Não conseguiam atingir um
acordo. Porque nem bem uma se calava – a outra retomava. Parecia que já estavam
assim há um longo tempo. Poderia se supor até desde sempre. As questões eram as
mesmas. Comuns. Antigas. Seculares. Milenares. Parecia cena de déjà-vu.

Deviam
regular entre três a quatro décadas – no máximo. Faziam expressões de intensa maturidade.
De extensa profundidade. Como se teias de aranha retirassem dos livros
empoeirados nos cérebros. Gesticulavam com as certezas nas pontas dos dedos. Viravam-se
uma para a outra com ar de inspeção pessoal. Como se circulasse uma pré
censura. Que cada uma pesasse bem o que fosse falar. Coisa difícil. Mas nunca impossível.
Isso dava para acreditar só de olhar para elas.

De
repente vi a expressão de uma delas.

Triste.
Até submissa. Mais escutava que falava. Parecia que solicitava um aparte. Ou tentava
erguer a mão. A pedir permissão. Ou talvez socorro. Como uma náufraga. Tentando
chamar a atenção do navio. Para se expor. Menos. Ou quem sabe se impor. Mais. A
mão denunciava o pedido. Demonstrava o corpo por trás dela. Da mão. E todo o temor
por trás do corpo. E a sempre possível solidão lá – emoldurando o temor. Ou o
contrário.

Mas
ficou ali. Tentando a permissão. Dava até a impressão de estar entediada. Mas não era uma avaliação fácil.

Era
ela – o objeto da discussão. A vida dela estava em acareação. Basculava entre o
certo e o errado. Entre a culpa e a desculpa. Entre o feito e o desfeito.

Parecia
um tribunal. Como se houvessem aberto uma sessão. Todos seguiam uma ordem. E obedeciam
a uma desordem. Pela expressão que fazia – teria que ser a jurada de si mesma. A
cada fala das incorporadas promotoras e defensoras. Sim. Porque elas
alternavam. Mas não perdoavam. Nem a defesa perdoava. Era a defesa contrária. Não
tinha juiz. Ou talvez tivesse. Mas ainda não se manifestara.

Havia
algo ainda mais interessante naquela confusão. Não olhavam para ela. Falavam
dela. Isso estava claro pela sinalização dos dedos. Apontavam. Até diziam a
palavra – ela. Ou – dela. Mas não olhavam para ela. Discutiam sobre ela. Mas a
tratavam como ausente. Falavam-se entre si. Poderosas.

Mas
nem tudo neste mundo é exclusivamente o que parece. Ela começou a rir. Rir
mesmo. Abaixou a tal mão supostamente erguida e começou a rir.  Até amparou a bolsa para que não caísse do
colo com o riso. Segurar a bolsa para rir foi perfeito. Não vi nada mais
adequado até aquele momento.

As
outras silenciaram por um segundo. Depois um minuto. Depois caladas – mesmo – olharam
para ela. Pela primeira vez. Desde que ali chegaram e se acomodaram – cada uma
em seu Lugar de escolha.

A
situação parecia se inverter. Já não dava mais para saber quem era navio. Quem era
náufrago. Muito menos onde estava o mar. Um riso modificou toda a cena. O cenário.
Jurados e advogados. Como se fosse cada uma para um lado. Assim. De repente.

O
riso se fez juiz.

Entre
condenados e absolvidos – o riso bateu o martelo. Os do navio pareciam se
debruçar sobre a murada. O náufrago parecia pensar se estava melhor com sua
tábua. Ou sua bolsa. Uma cena cômica.

Elas
fizeram um ar de irritação. Afinal. Só queriam ajudar. E estavam realmente preocupadas.
E ela ria assim. Em meio a uma conversa sobre ela. Uma conversa dela.

Não
respondeu objetivamente. Levantou. De um salto só. E já com a chave do carro na
mão. A tal mão da bolsa e que parecia antes erguida. 

E
disse. Assim. Despretensiosamente. Desculpem. Obrigada. Licença. Usou todo este
vocabulário polido. E continuou. Comecei a ficar com uma dúvida. De quem teria
mais dó. De vocês. De mim. De nós todas. Foi ai que – vai lá saber por que – me
lembrei. 

Achei
que iríamos almoçar em casa. Daí vocês telefonaram e me convidaram para almoçar
neste restaurante.

Havia
já colocado um peixe para assar.  Esqueci
de desligar o forno. Está lá já há mais de quatro horas. Ainda rindo completou. Por isso dizem que o peixe morre pela boca. Sorrindo – saiu.

Lembrei
de uma fala da minha avó. Muitas vezes o auxílio vem do esquecimento, menina,
muitas vezes o auxílio vem do esquecimento.

Estava
– assim – encerrada a sessão.

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