Escutando Vozes

Fez
absoluta questão. De acordar bem cedo. Afinal – era uma opção. Não uma
imposição. Assim ficava muito mais fácil lidar com as regras. Quando pudessem ser tiradas
– mesmo que temporariamente – da linha de frente. Para depois então incorporá-las – diagonalmente
disfarçadas.


acordou rindo e falando. Abriu a porta e deu uma espiadinha tímida para fora. A
varanda estava aberta. O céu azul turquesa. Lindo. A luz invadia comemorativa.
Um friozinho singelo dava um toque de elegância ao dia.  

Olhou
para o peixinho em seu lar-água-lar. Passeava tranquilo entrando aqui e ali. Devia
ser um mundo especial. Circular dentro da água. Dia e noite. Às vezes isso lhe
dava aflição só de pensar. Agora não mais. Ele deve olhar e desentender. Este mundo
de cá – onde se fica prisioneiro do ar.

Diante
destas ditas reflexões – tomou outra decisão. Melhor voltar a dormir. Não estava
ainda acordada o suficiente. Coitado do peixinho.

Riu.
Voltou para a cama.

Nem
bem deitou – o telefone tocou. Achava que nem bem tinha deitado. Mas já devia
estar a dormir de volta. Porque custou a entender. Achou até que já era um
telefonema do aquário. Ou que estava no aquário. Ou que o aquário era ela. Ou
que tinha pouco ar no aquário. Uma atrapalhação total. Em fragmentos de
segundos. Ou entre alguns toques de alerta do telefone.

Mas
– resolvidas estas questões – atendeu.

Não
sem antes derrubar o relógio. Procede. Eis um objeto que sempre merece ser
derrubado. Por um segundo, um pedacinho de segundo, riu de si mesma. Devia ser
hoje o Dia Nacional das Ditas Reflexões. Desejou aquela tecla pause. Sei lá. O Reino por uma tecla.

Finalmente
atendeu ao telefone. Era ela. Ele mandava avisar. A entrevista fora publicada. Sim.
E naquele jornal. Jornal.

Não
acreditou. Achou de novo que era o peixinho fazendo gracinhas. De dentro do
aquário. Que estava no aquário. Tudo de novo.

Até
falou isso para ela. Que ria do outro lado da linha. E confirmava. Sim. A entrevista
saíra.

Estava
lá. E quem quisesse poderia manusear. Manusear as respostas. Achou incrível. Mal
podia ficar parada. Trocava de sentada-levantada-deitada-de pé. Parecia uma
maratona solitária.  

Tudo
acontecera na véspera. Ela acabara de sair dos trilhos. Perfeito. Final da tarde.
De uma sexta. Caminhava entre as pessoas. Desvia daqui. Atravessa dali. De
volta para onde saíra.

O
celular tocou. Atendeu. Ele se identificou. Tinha uma voz atenciosa. Polida. Começaram
a se qualificar. Estilo remessa sucinta de dados de arquivo. Lembrava que ele –
o entrevistador – ria. Muito. Mas quando chegou o tema exato da entrevista – se
fez sério. Ela também se fez séria. E foi aquela retórica e dialética comum
nessas situações. Eu pergunto. Você responde. Eu desdobro. Você resume. Eu resumo.
Você desdobra. Mas só eu pergunto. E assim foi. Sem rostos. Só vozes.

Em meio às perguntas e às respostas notou para onde olhava. Quase riu. Mas se conteve. Não seria adequado rir de súbito. Parada. Falando
ao celular. Estava em frente a uma vitrine – de uma óptica. Escutando a voz
dele. Enviando a dela. Uma troca de idéias diante de uma vitrine de óculos. Muitos
óculos. E só as vozes se apresentando. Incrível. Mas nem por isso imperfeito. Nem
muito menos fora de lógica. Concluiu. Nestes momentos é impossível não erguer
um brinde ao mestre austríaco.

Agora
estava ali. Mais uma vez entre vozes. Ela avisava. E ela sentava e levantava. Derrubava
relógio. Compunha filosofias de aquário.

Mas
feliz.

Quando
desligou – ficou um tempo de pé. Olhando para o peixinho. Depois daquele quase exaustivo
senta-levanta. Repensando a cena diante da vitrine dos óculos. Recuperando na
memória as perguntas e respostas.

Vai
lá saber por que – lembrou da amiga. Em especial da avó da amiga.

São
as falas que organizam os cenários, menina, são as falas que organizam os
cenários.

Ele
levantou e resumiu. Pragmático. Vamos já para a Banca de Revistas. Desceram
rindo.

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    • Anonymous
    • May 25th, 2009

    Eu estava um pouco afastada da abril, acho que perdi muita coisa por aqui.Um beijãoooo!

    • lia
    • May 24th, 2009

    O melhor de tudo é que eu aqui além-mar..manusiei e li a entrevista no jornal, e fiquei muito orgulhosa. Beijos minha" amiga super meiga e super delicada"

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