Sincronia Inacabada

Amanhecera
frio. Muito frio. As nuvens pareciam amigas próximas tristes. Estavam baixas e
acinzentadas. A garoa da noite dava um certo brilho no chão. O asfalto devolvia
pontinhos de luz. Nas calçadas a luminosidade se fazia por inteiro. Quase ri. Quase.
Porque a prudência ensina a não rir quando só tem sonolentos com frio em torno.
Pode parecer um pouco caso. Mas enfim. O quase foi por que me lembrei daquele
costureiro famoso. Estilista para ser mais respeitosa.  Lembrei do que fez com a passarela. Em seu
desfile. Molhou a passarela. Para dar mais brilho. E um ar de aconchego de
inverno. Ficou lindo.

Aqui
o desfile não tinha regência famosa. Muito menos assinatura. Os passos não eram
ritmados. Nem o design exclusivo. Era mesmo um faz de conta que acordei. E uma
certeza do horário a ser cumprido. Mais ou menos assim. E amanhecera. Com nuvem
próxima ou distante. Com ritmo ou com desafino.  Muito menos com pesquisa de direitos autorais
– sobre chão molhado. Era fazer o dia acontecer. Isso. Já era o bastante para
um dia frio.

Ela
sentou próxima. Tinha um ar sério. Estava bem agasalhada. Uma echarpe vermelha
coloria a pele branca. E contrastava feroz com o casaco preto. Botas altas davam
um ar elegante. Sentou. Acomodou a bolsa no colo. Tentou colocar o som egoísta em
funcionamento.

Não
funcionou. Guardou de volta na bolsa. Ergueu-se um pouco do assento.
Acomodou-se como possível. Parecia conformada. Talvez precisasse escutar a música
interior. Vai lá saber. Mas ficou sentada. Absorta.

Elas
entraram falando. As duas. Sentaram de costas para onde ela estava. Não olharam
em volta. Não se interessaram pelo ambiente. Estavam entretidas com o tema
escolhido. E nem bem uma calava a outra já continuava. Falavam o mesmo assunto
em dupla. Os comentários se sucediam. O tom de voz aumentava se a queixa ou a
critica era mais forte. Não tinha música. Mas a sonoridade era vibrante.

Comentavam.
Criticavam. Ironizavam. E se divertiam com os critérios contrariados.  

Ela
é uma pessoa muito desagradável. Eu agüento porque às vezes me dá pena. Eu diria
até estranha. Discordo. De estranha ela tem nada. É mesmo muito esperta. Observou
como riu ontem no cafezinho. Ele estava perto. Ela foi logo querendo se
destacar. Para mim quem gosta de destaque é blog. Eu sou bem discreta. E riam. Muito.
Vai ver hoje. Deve chegar toda arrumada porque tem reunião. Por certo passou a
noite acordada treinando. Como assim treinando o que. As caras e bocas. Nunca percebeu.
Ela vive de caretinhas. No começo achei que era um tique. Nervoso. Mais risos. Vai
ver já chegou lá. Deve estar escolhendo o lugar onde sentar. Para ficar diante –
você bem sabe de quem. E gorda como está ficando vai ocupar toda a frente. Mais
risos.

Algumas
pessoas olhavam. Elas rindo – alheias. Não faltavam detalhes. Previsões. Análises.
Conclusões. Mas nem bem fechava um ciclo – lá vinha outro. Até falavam simultâneo. O assunto parecia realmente empolgante. Afinal
– vencera o sono. Desconsiderara o frio.

Notei
que ela estava atenta. Muito atenta. A cada fala que escutava com precisão – o olhar
ia se transformando.

Primeiro o som. Depois a imagem.

Tudo
começou quando escutou as falas.
Ergueu-se um
pouco. Identificou as pessoas. Foi o que pareceu. De inicio – fez olhar de
espanto. Com a continuidade – fez olhar de tristeza. Mas não se movia. Só o
olhar se expunha.

Olhou
para mim. E falou. Com voz tão triste quanto o olhar. Com as mãos apertando a
bolsa.

Elas
estão falando de mim. Sobre mim. Nunca pude imaginar. Trabalhamos há muitos
anos juntas. E muitas vezes saímos em um final de semana ou outro. Não sabia
que pensavam assim. Houve uma vez. Ela foi um pouco ríspida. E fez um critica
sem propósito. Mas achei que era o cansaço. Nunca questionei.

Nada
respondi. O que menos importava ali era uma resposta. Até porque resposta era o
que mais tinha. Tinha resposta para tudo. Para o presente. Para o passado. E talvez
– para o futuro.

Ela
levantou. Ficou diante das duas. Assim. De pé. Diante delas. Com bota de salto.
Echarpe vermelha. Casaco preto. Deu vontade de gritar olé.

Primeiro a imagem. Depois o som.

Disse
apenas uma frase curta. Tenham um bom dia. Só isso. E um imenso silêncio se
fez.

Fiquei
pensando em sincronias. E se o som egoísta tivesse funcionado. Se tivessem se atrasado.
Ou se adiantado. Lembrei a minha avó. O Tempo sempre interfere no Espaço,
menina, o Tempo sempre interfere no Espaço.

Chegou
o local de descida. Ela me olhou de volta. Fez um cumprimento formal com a
cabeça. E saiu. Elas saíram atrás. E a seguiam de perto. Parecia que tinham
perdido o esqueleto. Estavam disformes. No andar. No gesticular.

Ela
altiva – caminhava na frente – com aparente tranqüilidade.

Sumiram
na multidão.

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