Sobre Pudores e Temores

A
sala estava cheia. Cadeiras e poltronas ocupadas. Não havia um só espaço para sentar.
Ele chegou com ar tranquilo. Parecia sereno. Sabedor do que exatamente fazia
ali. Olhou em volta. Confirmou. Não tinha mesmo onde sentar – aceitou. Vestia-se
elegante. Sóbrio. Os óculos de aro preto lhe davam mais idade que a pele e a
postura. Rendia-se ao frio através de um cachecol. De pé encostou a um canto da parede. Abriu um livro.

Parecia
que estava só. O seu mundo estava dentro do livro. Não fora dele. Como se
estivesse em uma bolha. Uma redoma. Vai lá saber. Nada o desconcentrava. Nem barulho.
Nem o murmúrio das vozes de quem também esperava. Nem quando ela derrubou o
envelope que segurava. Nada o desconcentrava. 

A
expressão acompanhava o que lia. Parecia uma exposição de mímica facial. O
corpo – imóvel. Os ombros encostados na parede. As mãos virando as páginas. E no
rosto o reflexo do texto. Às vezes sério. Outras com cenho franzido. Outras vezes
parecia que lera algo engraçado. Surgia uma meia covinha na face. Passava as
páginas com suavidade. Devia ser alguém que realmente gostava de livros. Com
muito cuidado o manuseava. Uma delicadeza de quem sabe como é sutil o lidar com
as palavras.

O
atendimento estava atrasado – ali ficou por muito tempo. Até me pareceu que
chegara adiantado. Devia ser cuidadoso com o tempo. Como demonstrava ser com o
livro.

Aliás
– devia ser cuidadoso com tudo. Com os livros. Com a própria imagem. Os cabelos
um pouco grisalhos tinham um corte adequado ao rosto. Uma daquelas pessoas que,
por ser discreto – acaba por chamar a atenção. Conclui isso quando olhei em
volta. Muitos olhavam para ele. Meio que ocupavam o tempo observando a elegância
e discrição dele.

Assim
estavam todos. A assim a sala de espera se comportava. Salvo um ou outro que
levantava para um pouco mais de água – a maioria aguardava sua vez. Com calma e
tolerância. Uma mocinha escutava música de forma egoísta e batia os pés no
chão. Uma possível denúncia do ritmo do que escutava. Um egoísmo com certa
socialização. Digamos assim.  A mocinha
que derrubara o envelope o continha com força entre os dedos. Duas moças sussurravam
algo sobre amores e pudores. Uma senhora fazia uma dança com duas agulhas entre
os dedos. E uma mágica em forma de meia parecia surpreender a quem acompanhava
os movimentos dela.

Foi
ai que veio o que se poderia dizer – segundo ato. Se um Teatro fosse. Ou – um molto vivace. Se um andamento musical fosse.

Mas não foi. Não era.

A mocinha do som egoísta sentiu algum calor. Mesmo diante
do frio precoce. Talvez causado pelo bater de pés. Ou pelo calor do ritmo que
escutava. Isso não se soube. Nem foi perguntado.

Ela levantou. Foi até junto dele. Junto dele tinha
uma janela. Abriu. Assim. Sem mais nem por que. Sem consultar. Sem avisar. Abriu.

Ele, concentrado – continuou a ler o tal livro. Talvez
tenha erguido de leve a sobrancelha. Mas não ergueu sequer o olhar. Permaneceu
de pé. Agora junto ao ventinho da janela. Mas com toda a elegância já definida
desde a chegada.

Alguém
gritou. Em alto e explícito som. Uma barata. Entrou voando pela janela. Está
ali. No cachecol dele.

De
repente tudo voava. Não só a infeliz invasora. O livro voou longe. Despaginado.
Quase fraturado. Aberto. Exposto. Desencapado. Uma tristeza. O cachecol foi arrancado
às pressas para fora do pescoço. No seu vôo sem escala prevista – se enfiou nas
agulhas dançantes da mágica senhora. De onde saiu voando já mais acompanhado e
foi se espatifar no chão enfiado em duas agulhas.  E bem ao lado das mocinhas sussurrantes sobre
amores e pudores. Que perderam os pudores – e talvez os amores – e saíram com pernas
e gritos para fora de onde estavam contidas.

Entre
gritos, vôos rasantes e acrobacias – vieram os seguranças. Queriam saber onde. Quando.
Quem. Esqueceram do por que. Atropelados, pelas duas mocinhas ex-sussurrantes,
tentavam chegar até a senhora das agulhas. Impossível. O elegante e concentrado
leitor agarrou um deles pelo braço e suplicou. Ao menos foi o que pareceu pelo
tom de voz. Uma súplica. Dizia com voz trêmula. Matem. Matem.

Tem situações especificas que um simples – por que – faz falta. Tivessem perguntado o por que
dos súbitos vôos e gritos – saberiam do que se travava.

Mas
não foi preciso. A mocinha do som egoísta trazia entre os delicados dedinhos –
uma mariposa. Ela não tremia a mão porque segurava a mariposa. Acredito que a
mariposa – de tão  assustada – tremia a mão
dela. Da mocinha.  Disse – era uma
mariposinha. Assim. No diminutivo.  

O
segurança retirou a mão dele do braço exigido Todos se olharam. Ela olhou para
todos. A mariposinha por certo – não quis olhar para ninguém. Saiu – tão logo pode
– voando janela a fora.

Quase
igual a ela – fez o leitor elegante. Quase. Pegou o livro despaginado. O cachecol
desalinhado. E, pálido, saiu. Meio que voando – de tão apressado. Mas – pela porta.

Mas
igual a ela – tremia. Só não se perguntou mais uma vez o por que. Se de
temores. Ou se de pudores.

Escutou-se
um riso vindo do cantinho da sala. Foi a vez da senhora das agulhas mágicas. Devia
ter a resposta.

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