Sem Luz – Sem Câmera – Com Ação

O
dia começara quase como no estilo habitual. Mas enfim. Era mesmo o último dia
dito útil da semana. Já era este um bom pensamento pelo despertar.

Como
nada é mesmo perfeito – amanhecera um pouco enevoado. Mas nada de
importante. Os dias estavam assim. Amanheciam com uma temperatura mais
delicada. Com o passar das horas o calor dizia presente em alto e bom grau. Confiante
na repetição – arrumou-se adequadamente. Uma roupa leve. Sapatilha. Nada de
muita paranóia de frio. Ou de excessos. Estava já há muitos anos na região. Sabia
como se comportar. E sabia como a dita região se comportava.  Sentiu-se quase uma especialista em
meteorologia. Até dispensou ler o boletim diário. Já sabia tudo.


na rua sentiu alguns pinguinhos delicados. Uma garoa banal – pensou. Não deu
novamente importância. Apressou o passo e foi em direção aos caminhos dos
trilhos. Não esqueceu um risinho sorrateiro. Um certo olhar de superioridade. Em
direção aos exagerados com casacos, botas e lenços. Embora já tentasse disfarçar um
pouco de desconforto. Estava frio. Além do habitual da semana. Enfim. Devia ser
porque ainda era cedo. Muito cedo. Novamente não deu importância.

Parecia
já um dia de rebeldia.

No
percurso – teve uma idéia.  Iria ao
cinema no final do dia. Há tempos não fazia isso. Estava sempre voltando direto
para casa. E acabava desanimada de sair outra vez. Desta vez iria retomar o
ritmo antigo. E saudável.  

Sempre
gostou disso. Ir ao cinema no último dia da semana. Era como se exorcizasse os
dias de tanto trabalho. Finalizava com uma viagem ao mundo da sétima arte. No
começo desta rotina sentia falta de uma companhia. Depois se acostumou.

Lembrou
um conselho da avó de uma amiga. Vemos e escutamos com os nossos próprios olhos
e ouvidos, menina, com os nossos próprios olhos e ouvidos.

Perfeito.
Assim entendeu. E lá ia. Sozinha. Sem queixas. Nem pequenos pudores. Escolhia o
filme. Segundo seu gosto e expectativa. Assistia. E voltava para casa certa de
que se dera realmente um presente.

Foi
esta retomada que decidiu logo cedo. Parou antes de chegar ao destino. Comprou o
jornal. Precisava escolher. Tinha uma sala de cinema que ela adorava. E ficava na
Avenida preferida dela na cidade. Leu a programação. Perfeito. Até sorriu. Escolha
feita. Agora era só torcer para que o dia não fosse tão longo. Mas aprendera
também a ter paciência. Até porque ter ou não ter – paciência – não é uma questão.
Em relação ao passar do tempo – é sabido – nada muda.

Mas
a chuva realmente chegara – e permanecia. Não diminuía. Não partia. Ficava. O dia
todo olhou pela janela. Mas concluiu. A Avenida do tal cinema era bem longe de
onde estava. Devia ser chuva por zona. Isso também era habitual nesta cidade. Ela
iria para outra no final do dia. Continuou otimista. Mas – prudentemente – desconfiada.

Acabou
o horário. Desceu. Já atravessou a rua sob chuva mais forte. Garoa parecia
coisa do passado. O presente era bem mais contundente. Cabelos e roupa –
inadequada – molhados.  A sapatilha
estava de fazer inveja. A algum habitante do deserto. Só se fosse a algum
deles. Porque os pés estavam encharcadamente congelando. O frio aumentara.
Muito. Muito.

Era
um mais tremer que não dava conta. Mas se esforçava. Isso era inegável. Se esforçava
para ser discreta. Nada de ser olhada pelos outros no final do dia – do jeito
que olhara para os outros no começo do dia. Vingancinhas têm limites. E não aceitaria
provocação. Do olhar de quem quer que fosse.

Desistiu
da tal sétima arte. Entrou em casa. Gelada de frio. A roupa molhada. Os cabelos
molhados. Pela bolsa os respingos marcavam sua entrada da sala ao quarto.

De
repente o interfone tocou. Era o porteiro. Alertava de uma correspondência sob
a porta da cozinha. Foi verificar. O selo dizia algo sobre urgente e importante.
E confidencial. Algo por aí. Leu no envelope a palavra Justiça. Quase riu. Era
a última palavra que pensou em ler naquela altura dos acontecimentos.

Abriu.
Era uma intimação. Para ser testemunha. Numa ação trabalhista. Agora sim. Falou por entre os dentes. Faltava
mais nada. Mas tentou manter a calma. Ainda gostaria de ver os netos nascerem.

Deixou
a finada sapatilha de lado. Teve o cuidado de guardar o envelope da tal intimação.
Trocou os pingos frios por pingos quentes. Desconsiderou até a salvação do
Planeta. Aqueceu-se por um tempo a mais no chuveiro.


relaxada – colocou uma ópera. Achou a escolha procedente. Apagou as luzes. Fez a viagem em volta de
sopranos e tenores. Numa arena. Nada mal – pensou.

Estava
– de qualquer jeito e sob qualquer condição – deflagrado o final de semana. Que
venha, então.

Quando ele chegasse e ela
contasse – coitado dele se risse.

Recostada no sofá – abraçada num edredom – riu
sozinha.  

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    • Cris
    • May 16th, 2009

    Bacaninha o post, bem ao contrário do dia… Mas coitado dele mesmo, se não conseguisse rir… Gostei. Bjs!!!

    • roselena de avila
    • September 14th, 2009

    • Anonymous
    • May 18th, 2009

    Ele, o Edredon, sempre salvando a gente. …rsrsrs..abraçosssss

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