Sobrancelhas Austríacas

Viu
a porta aberta e entrou para um cumprimento. Sentou com suavidade. Puxou a
cadeira para mais perto da mesa. Muito polida. Estava bem maquiada. Batom
discreto. Os cabelos longos e com cachos soltos emolduravam a face. Tinha aneizinhos
nos dedos. Uma roupa em tons claros adequada para a ocasião e estação. Assim. Toda
uma lógica percorria gestos e atitudes.

Falava
com voz serena acompanhada de um riso contido.

Na
hora pensei esta palavra. Contida. Não dei o destaque necessário. A esta
observação. Errei. Sempre que algo der um sinal de alerta – deve-se estar
atenta ao sinal de alerta. Este é um princípio básico. Do Manual da Socialização.
Ou da Sobrevivência. Me chamou a atenção. Mas fiquei escutando o que dizia. Ela
falou. Com todo aquele jeitinho dócil. Olhava também com certa docilidade. Certa
docilidade. Outra observação – notei e desconsiderei.

Como
dizia sempre a minha avó. Fica atenta ao erguer espontâneo da própria
sobrancelha, menina, fica atenta ao erguer espontâneo da própria sobrancelha.

Ela
estava mais uma vez certa. Dava até para comparar com o mestre austríaco. Sobrancelha
é o melhor analista de uma situação. De uma atuação. Como se lesse sempre primeiro
que os olhos. Ou escutasse muito mais que os ouvidos. Deve ter uma ligação
direta especial com o cérebro. Como sentinela. Ergue-se como sinal de alerta máxima.
E nem sempre é valorizada. Acaba-se por desconsiderar esta vigilante proteção.

E
assim foi. Lembro que as minhas sobrancelhas se ergueram uma ou duas vezes. Mas
fiquei – diante da docilidade – com ingenuidade. Mais ou menos por aí.

Fez
um gesto sobre a mesa. Arrumou com toda uma sequência os papéis que estavam em
desalinho. Acariciou os papéis na ordem que colocou. Ajustou mais uma vez a
cadeira em direção a mesa. Falou algo sobre gostar muito do que fazia. E sobre
ser uma pessoa com uma dose alta de paciência e metodologia. Até usou esta
palavra. Metodologia. O serviço de casa era cansativo. Mas tinha tanta
metodologia que acabava ficando mais fácil. O marido a questionava. Achava que
nem tudo fazia bem. Achava que tinha culpa por alguns desacertos. Em especial
da saúde. Por um tempo essas observações a incomodaram. Atualmente – não. Sabia
que fazia o melhor possível. E garantia que ninguém faria melhor do que ela. Tinha
uma mania de limpeza quase obsessiva. Mas preferia assim que lidar com poeiras
e sujeiras num ambiente de convivência familiar.

A
cada frase encerrada – ou a cada ponto de continuação surgia um sorriso. Quase como
um hífen. Ligando palavras e amenos trejeitos faciais.

Interrompeu
um pouco o que falava. Pediu com a mesma voz dócil. Gostaria de um copo com
água. Estava frio. Mas sentia sede.

Recebeu
o copo. Colocou sobre a mesa. Num movimento casual para ajeitar a bolsa sobre o
colo – derrubou o copo.

Ai
sim. Foi a vez que fiz o tal aceno positivo em memória da minha avó.

Era
uma outra pessoa diante de mim. O copo caiu. Não quebrou. A água se espalhou
sob a mesa.

Ela
ficou vermelha. O cabelo parecia que tinha até encolhido. Ou aumentado o número
de cachos. A voz parecia ter dado um adeus eterno à docilidade. Nada de voz
orquestradinha. Agora era voz tempestuosa. Gritou. Eu odeio isso. Odeio o que faço.
Odeio a ele. Odeio ter que cuidar dos outros. Odeio cuidar da casa. Odeio essa
sujeira.  

Desta
vez acho que até meus cílios se fizeram companheiros das sobrancelhas. Mas já era
tarde.

Tentei
acalmar. Acidentes acontecem.

Olhou
séria para mim. Olhava para a água no chão e se desculpava. E esbravejava
contra tudo e contra todos. Nem escutava o que lhe era dito.

No
final de um tempo – o tempo superou a si mesmo. Pegou os
objetos que estavam já numa cadeira ao lado. Perguntou pelas horas. Ajeitou os
cabelos. E saiu.

Olhei
para o chão molhado. Para os papéis alinhados na mesa. Para a porta. Precisei de
um tempo para que as minhas sobrancelhas e cílios voltassem ao local de
nascimento. Pareciam estar já penduradinhos no teto.

A
mocinha da limpeza entrou. Apagou o registro. O dia prosseguiu. Embora diferente
do jeito que começou.

Recuperada –
relembrei meu querido amigo indiano. É a água que cuida da limpeza. Seja da
forma que for. Consegui até rir.

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    • Anonymous
    • May 18th, 2009

    A boa e velha estoria de Jekyll e Hyde,
    hehehehehe,
    um beijo

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