In Praesentia

Ela
sempre alertava. Muitas vezes as faltas são tantas que acabam ocupando lugares
indevidos. Não sei se são muitas. Ou se estão muitas. Ou se as vemos muitas. Meio
complicado falar de falta. Expõem metades. Pelas metades. É sempre um paradoxo.

E
pela metade muitas vezes são as explicações. E os excessos ambíguos da falta de
explicações. Os descuidos com as gentilezas. O desuso das delicadezas.

Eis
um terreno fértil. Com enorme rapidez fica-se pleno de faltas. Falta de
interpretação. Falta de motivos. Falta de compreensão. Falta de confiança. Falta
de lealdade. Falta de reciprocidade. Falta de conclusão. Falta de solidariedade.
Falta de afetuosidade. A antiga e sempre conceituada falta de paciência. Isso sem
esquecer a falta de compostura. Ou a sempre citada falta de condescendência.
Que tantas vezes é aliada da falta de coragem.Ou da falta de conceito. Mas
não se pode esquecer jamais – a falta de resposta.

Assim
eu estava. Diante deste redemoinho de faltas. O telefone tocou. E o som fez um corte
no tempo das faltas. Por que nas faltas do tempo isso já é comum.

Ela
viera por uns dias. Rápidos. Era uma festa de família. Teria que participar. Mas
conseguiu uma breve saída. Para vir até aqui.

Aguardei
feliz. Chegou feliz. Desbravadora e vencedora dos trilhos. Nos trilhos. Confiante
na decisão. Sorridente com a conclusão. Impossível errar o caminho. Já começamos
a rir desde esta frase. Muito mais que uma frase. Tudo reafirmava os caminhos
trilhados. Não no destino. Mas na Vida. E certos. Ao menos parecia até o
momento.

Quando
sentamos para o vinho – nos repetimos. Rimos e choramos. Como no tempo das inaugurações
do exílio. Ela no dela. Eu no meu. E o som das teclas fazendo vínculo entre nós
duas. Foram tempos difíceis. Mas nunca em tempo algum nos falamos tanto. Nunca contamos
tanto uma sobre a outra. Nunca soubemos tanto de nós. Ali sim. Não havia falta
de assunto. Eis uma falta abolida. Enfim uma. Até comemoramos. Podia faltar
tudo. Mas nossa conversa era abundante. Um mais jorrar de palavras. De comparações.
De questionamentos. De textos lidos. De textos a ler. Ela reclamava a impossibilidade
do trabalho externo. Eu invejava o ócio temporário. Dela. E ela ria da minha
agenda se construindo. Ou se paginando.

Descobrimos
o sabor das páginas. Que só passam a existir quando preenchidas. Só se folheia
o que está preenchido. Parece óbvio. Mas nem tanto. Páginas em branco são completas.
De faltas. Não se brinca de olhar para elas por muito tempo.


um dia me avisou. Arrumei as malas. E voltou para as raízes.

Depois
disso – alguns hiatos. Um silêncio. Um retorno. Uma noticia. Um bilhete. Um sufoco.
Um até mais. E por muito tempo nos afastamos. Da nossa história. Da nossa
rotina. Até que um dia – faltou assunto. E sobrou silêncio. A tristeza – por
saber mais faltas – se fez presente.

Agora
estávamos ali.

Naquele momento.Sentadinhas nas cadeiras – na cozinha. A tentar atropelar o mínimo
possível. Os relatos. Os excessos do – eu me lembro. Os inúmeros – você não sabia.
Incontáveis – nem sei por que não lhe disse. Quase foi preciso contratar um cronômetro.
 De emergência. Ou uma nova emenda. Uma legislação
de urgência. Você fala. Ela fala.

Fez
um comentário. Sobre duas coisas que fazia bem. Dirigir e criar. E torcia pelo
futuro. Para continuassem sendo elogiadas. Mesmo que num tempo passado. Rimos porque
não faltou tempo. Achei genial a informação. E o pedido. Daria até para
inscrição em pórtico. Passado. Presente. Futuro. Numa única eleição. Mas enfim.
Lembrei do Filósofo santificado. Ele falava isso. Que não existe futuro nem
passado. Só presente. Porque é nele que falamos. Seja em que tempo for. Perfeito.

Quando
nos despedimos – já todo o velho código estava re-paginado. Os risos resgatados.

As
faltas pareciam diminuídas. Mas nunca se sabe. Talvez tenham escapado pela porta
da saída. Ou ficaram atrás das cortinas. Ou se esconderam como poeira sob o
tapete. Até ri quando pensei nisso. Pode-se passar a Vida toda permitindo que ele acolha
faltas e erros. Deixando por cima risos e acertos. O tapete como o Presente do Filósofo.
Salvaguardando. O Futuro do Presente. Eis a enevoada solução. Arriscada por certo. Pisar
sobre faltas é atividade que requer arte. Muito mais que sabedoria. Até por que
quem sabe – não pisa.

Mas
como dizia a minha avó. O que falta e o que sobra é sempre misterioso, menina,
é sempre misterioso.

Olhou
para trás. Deu um sorriso. E lá voltou pelos trilhos até o encontro agendado
para a festa. Dia seguinte voaria cedo para as raízes.

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