Circulando na Vertical

O
convite era irrecusável. Ela sempre fora delicada. Gentil. Não podia desconsiderar.

A
festa era intensa e imensa. Dava até para fazer rima.

Chegava-se
pelo alto. Inteligente a opção. Um pequeno pátio abrigava muitas pessoas. Depois
vinham as escadas. E as escadas apontavam para baixo. Procedia. Nunca vi uma
arquitetura tão bem posicionada. Coisa de quem entende da alma. Do comprometimento
do emocional.

Mas
assim cheguei. Igual a todos. Pelo alto. E fui descendo. Aí começavam as
diferenças. Dava até para brincar de hipérbole. E lembrar o poeta italiano. À medida
que descia – o igual a todos já ficava bem menos amplo.

A
seleção se estabelecia com nitidez e rapidez. Mais rimas.

Fosse
uma aula prática de Poemas ou de Linguística – e os alunos teriam sido bem
servidos. Jamais um aprendizado falho. Ou incompleto. Nada ali apontava falhas
ou incompletudes. Não foi à toa que começava do alto. Nada de metonímias.

A
noite estava amena. Não chovia. Ninguém suava. Aliás, nem Ele faria uma desfeita
dessas. Ou teria tamanha Coragem. Não se podia imaginar naquele ambiente algum
tipo de desconforto físico. Emocional poderia até ser. Físico nunca. Nada que não
pudesse ser disfarçado. Encoberto. Despistado. Nada explicitado. E para o implícito
sempre existe uma correção. Ou até uma dúvida. Nada mais perfeito que uma ou
outra dúvida. Cabia no espaço com folga. E passeava com intimidade. A dúvida.

Delicadas
borbulhinhas passavam como se levitando. Viam-se as bandejas. As taças. Mas as
pessoas que as serviam não faziam diferença. E de ambos os lados. Perfeitamente
democrático. Eu não lhe vejo. Eu nem sei quem é você. Mas eu lhe sirvo. Eu finjo que lhe agradeço. Corretíssimo. Era o que sugeria a situação.

Sozinha
– me encostei em uma mesinha. Uma mesinha amiga. Coloquei com delicadeza a
minha tacinha sobre ela.

Por
um segundo lembrei do convidado que acariciava os objetos. Como se a única
intimidade possível fosse com as coisas. Não com as pessoas. E vi que muitos
repetiam o subitamente recordado convidado. Era um tal de acariciar taças. Guardanapinhos.
Toalha de mesa. Conclui. Isso deve ser algum contágio social. Desta vez ri. Mas
de acordo. Disfarçadamente.

De
repente ela me viu. Veio sorridente. Acolhedora. Não me pareceu feliz. Talvez um
pouco tensa. Não a senti descompromissada com a roupa que vestia. Mas também não
a entendi compromissada com esta mesma roupa. Não parecia sentir adequada. Talvez
fosse isso. Devia estar entre.  E estar
entre sempre provoca um certo ar de sobreaviso. Como uma báscula. Nem tanto. Nem
tão pouco. Nem dentro. Nem fora. Nem alto.
Nem baixo.

Mas
estava ali. Com entre ou sem entre. Fazia parte do contexto. E o contexto
parecia fazer parte dela. Mas tudo ali parecia. Era uma linha difícil – e até impossível
de separar. O parecido e o constituído. Entre boas vindas e discretas vindas – devolveu uma possível gentileza antiga. O riso era contido. Não era o riso
habitual dela. Solto. Leve. Observador. Este era controlador. Mais ou menos
assim.  Na hora até ri. Com as minhas
manias de cortar palavras. De observa-dor a controla-dor estava todo um riso explicado.
Mas não comentei. Precisou sair. Voltei à minha mesinha – a esta altura já quase
um parente.

Egocentrismo
sempre dá lá seu jeito de se divertir.

Optei
também por circular. Entre salas e apetrechos. Compreendendo o bom gosto. E a boa
intenção por trás dele. Já devidamente metaforizada – me espalhei. Sorri. Fiz amizades
de infância. Repeti sotaques. Relembrei estilos. Consumi como uma quase igual. Carreguei
sacolinhas com cuidado. Perfeito. Já estava até acreditando quando a realidade
me trouxe de volta. Como um puxão de orelhas. Ela me deu um aceno. De longe. Ele
telefonou na hora exata.

Subi
de volta as escadas. Sai do baixo alto e voltei ao alto baixo. Confusa, lógico.
Mas nada ali poderia deixar de ser confuso. Os estilos e os trejeitos eram
muitos. E todos com total capacidade de exposição. A imposição ficava por conta
das taças circulantes e levitantes. Só depois de um tempo que entendi isso. Adorei.


no carro – olhei para trás. Exagerada – surgiu até um pensamento bíblico. Acariciei a mão dele e deixei a sacolinha de lado. Voltei para o plano. Já tinha altos e baixos suficientes
por uma noite.

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