Trocando as Cores

Ele
escolheu o lugar. Eles concordaram. Nós aceitamos. Estava tudo perfeito. Nada fora
do estilo habitual. Marcaram a hora de nos pegar. Com eles dois iríamos encontrar
já no lugar combinado.

Começamos
a nos arrumar. Tudo com muita calma. Ainda fazia parte dos festejos. Mas agora imitávamos
– em parte – o título do livro. Seis. Não éramos. Somos. E lá organizamos os
seis o restante das risadas e congratulações.

De
repente uma idéia. As idéias são assim. Nunca sabemos se estão contra ou a
favor. Ele sugeriu.  Uma taça de vinho
antes de chegarem. Depois descemos. Dá tempo. Aliás – tempo é o que mais temos
hoje.

Concordei.
Procedia. Já arrumados – iniciamos nosso festejo particular.

Sentamos
diante da mesinha. Organizamos taças e guardanapinhos. Tudo com muita
delicadeza. Em tempos de comemoração toda a gentileza é pouca. Ele, cuidadoso,
foi se adiantando – eu lhe sirvo.

Abriu
a portinha de vidro. Olhou. Escolheu. Pegou a garrafa que descansava na prateleira.

Solidária
a tal garrafa. Ou a prateleira. Não quis vir sozinha. Veio em conjunto com mais três. E foram
abruptamente ao chão. Assim. Sem mais nem por que. Sem maiores explicações. Sem
menores detalhes. Sem grandes considerações.

Caíram.
Unidas. Deviam ser da mesma videira. Vai ver vieram na mesma importação. Nascidas
e criadas juntas. Um primor de união. Pensei num daqueles milésimos de segundo.
Que surgem diante destas pequenas tragédias. Concessões do bom humor que ajudam
a manter a sanidade.

Por
um segundo antes o cenário parecia em ordem. O piso branco. Os tapetes – azul e
branco. As cadeiras com a madeira envernizada bege.  Os sapatos com tom e brilhos corretos. A saia
longa colorida dava um toque informal. A calça de um jeans acinzentado já
avisava da chegada do inverno. Assim. Tudo sob controle.

Por
um segundo depois – o cenário já se re-organizava de forma espontânea. Pelo piso
branco escorria apressado e caudaloso o líquido vermelho. Os pedaços de vidro
sugeriam um mosaico sem limites sob o brilho da luz do teto. Os tapetes
afogados pareciam ter engordado de repente. E lentamente a cor deles ia mudando. Muito
mais lenta e no inverso da nossa. Nós rapidamente de corados passamos a brancos.
Esverdeados até diria.

Os
sapatos. Estes sim. Se adequaram rapidamente ao ambiente. Vermelhos e com
lasquinhas de vidro. Pareciam os sapatos mágicos daquele filme clássico-preferido dos
irmãos do Norte. Só não tínhamos as pedras amarelas para seguir. A saia – mais colorida
que antes – pingava o vermelho com uma delicadeza especial. A calça – já
distante do tal jeans acinzentado – não mais anunciava o inverno. Homenageava
uma arena. O touro já tinha vindo. E – certamente – vencido.

Não
mais havia espaço sem cor. Ou vazio. Exceto dentro da portinha de vidro. Lá sim.
Tudo continuava com a temperatura mantida. Nos espaços projetados. Com a calma
da frieza. Ou com a frieza da calma. Aquela altura não dava mais para ser
teórico.

Entre
pulinhos para não aumentar a composição do tal mosaico e corridas aos paninhos
para diminuírem a tal arena – o riso se fez. Impossível nos olhar e não rir. Uma
pergunta não calava. Falamos mesmo o que a respeito da sobra do tempo. Mais risos.
Panos jogados às pressas. Roupas trocadas como se num desfile de modas –
tamanha a ligeireza dos gestos. Sapatos retirados com cuidado. Telefone tocando.
Avisos de – já estamos aqui. Podem descer.

E
nós ali. Entre os verbos. Poder. Querer. Dever. Descer.

Escolhemos
o verbo – telefonar. Avisamos a ela. A ela. Quando chegar amanhã pela manh㠖
cuidado. Quatro garrafas de vinho se quebraram. No chão. Acho que escutei um possível
o que. Com alguns decibéis mais sofisticados. Não sei bem. Desliguei.

Talvez
esta tenha sido uma frase da minha bisavó. Já não posso garantir. Se não tiver
a solução – apenas feche a porta. Sugestão obedecida – ato praticado.


no carro – vi um brilho na meia dele. Um caquinho de vidro a enfeitava. Retirei
com delicadeza.

Mas
não contamos a eles.

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