Revirando o Tempo

Estou
sempre lembrando os poetas. Nunca estive tão à mercê deles como atualmente.

Hoje
foi a vez dele – invadiu o meu pensamento. De repente veio assim. Uma poesia
específica. Procede. Era sobre o dia dos anos dele. Como ele olhava para os
anos passados. E como comemorava o ano presente. Desconheço enredo mais belo. Assim
são os poetas. Não deixam que nada escape. E, a cada versinho, cada um se enlaça
dentro da sua pessoal desorganização. Sim. Porque diante das organizações – a
poesia escapa. Fica-se com as estatísticas. Ou com as listas. Ou até com as
falsas verdades. Mas a poesia só denuncia a desorganização. Aprendi há tempo.
Sem atalho e sem todo.

Brinca-se com
as palavras. Como na arte da dobradura. Começa-se com um papelzinho sem marcas.
Dobra-se daqui. Vira-se dali. E a figura que surge parece até espontânea. Mas
não é. Palavra é escolhida a dedo. Mesmo que seja vinda de um ato
falho. Ou de um ato perdido. Até de um ato esquecido. Como as dobraduras – as palavras
nos levam ao Lugar que manufaturamos. Disso ninguém escapa. Pode negar.
Recusar. Mas não tem saída.

E
lá estávamos nós. Há quatro dias. Diante de tudo que representava ato e fato. E até o contrário
cabia. Festejo é sempre assim. Um não mais acabar de vice-versa.

Desta
vez – mais uma refeição antes da partida. Reiteramos votos e afirmamos dúvidas
eternas. Lógico. Não existe continuidade se não há as cultivadas dúvidas. A minha
avó estava certa. As certezas não constroem as grandes amizades, menina, as
certezas não constroem as grandes amizades.

Foi
pensando nisso que nos despedimos. Sob o som do zíper das malas sendo fechadas. Do
barulhinho das rodinhas pelo piso. Do girar delicado da chave na porta. Elas se
foram. No final da tarde. Ou no final do dia. Não importa. Despedida não tem
horário. Simplesmente é.

Saíram
levando novos risos e novos códigos. Um pretenso caderninho com novas páginas
escritas. Em meio às páginas amareladas dos velhos e recontados acontecimentos.
Cada uma com seu olhar para o que viu. Para o que negou. Para o que descobriu. Até
para o que esqueceu.

Quando
saíram – sentei.

Olhei
a mesa com a toalha branca ainda sobre ela. Caminhei com os dedos pelos
bordadinhos. Uma manchinha vermelha me fez rir. Lembrei dela cobrindo com o guardanapo
a pequena marca do desatento gestual. O cafezinho esvaziado em sua proposta
marcava com fina textura a xícara deixada num cantinho da mesinha. As cadeiras desalinhadas
denunciavam o senta-levanta. Nas pias alguns pratos se amontoavam certos da
função bem aplaudida. Um papel colorido e brilhante num cantinho do sofá demonstrava
os motivos do encontro. As flores coloridas erguiam-se alheias se idas ou
vindas. Na bancada as fotos mexidas marcavam a dança da memória.

Um
ventinho entrou por uma fresta da porta da varanda e percorreu o espaço como posseiro.

Em
meio a esse amontoado de lembranças – o telefone tocou. Até dei um pulo da
cadeira. A realidade se apresenta de todas as formas. Foi o que pensei. Procedia.
Do lado de lá alguém solicitava informações precisas. Práticas. Pragmáticas. Respondi
o demandado. Sorri. Parecia que me acordavam. Que os acontecimentos giraram em
torno de um cochilo. Uma piscadinha mais longa.  

A
rotina re-estabelecia as suas metas. Não sei se com tranqüilidade – como pensei
num primeiro momento. Mas por certo com determinação. Até acelerei os movimentos.
E já fui olhando para o relógio. Só não olhei logo porque esqueci onde o havia
colocado. Mania antiga. É sair da rotina – e o coitado do relógio vai para um
canto qualquer. Mas – resgatado – voltou a dar as ordens. E me pus de imediato a
obedecê-las. Agora era só recolocar o que estava deslocado. Arquivar novos
dados na memória. Voltar a prever o dia seguinte. Guardar objetos em seu devido
Lugar. Fazer o mesmo comigo. Retomar o meu tal devido Lugar.

Bem
o contrário do que foi vivido. Pensei enquanto colocava os registros em ordem. Enquanto
alinhava as fotos no balcão. Ou arquivava a poesia. Ou enrolava e dispensava o
papelzinho colorido do presente. E o tempo se fez total. Sem fragmentações. Quase sem antes e depois.

Estávamos
com os dias ao nosso redor. Agora era continuar ao redor dos nossos dias.

Tudo co-memorado na forma de-vida. Ri. Feliz.

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    • Renato
    • May 8th, 2009

    Adorei!!! como sempre, rs,
    E o relogio volta a dar ordens, rs, muito bom,
    beijos

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