Trocando os Tempos

Eis
a questão inicial. O tempo passa muito rápido. Não dava para acreditar. Lembrei
o poetinha favorito. De um versinho breve. Tão breve quanto a Vida. Algo sobre
quem é aquele envelhecido ali que me olha. No espelho.

Pode-se
até amor-daçar o desperta-dor. Pode-se esconder o objeto. Só o objeto. Por que o
tempo fica ali. Servindo-se de si mesmo. E servindo-se do outro.

Impossível
não pensar. Como dizia a minha avó.  Sempre
parece que foi ontem, menina, sempre parece que foi ontem.

Foi
assim que me senti – de repente. A  serviço
do tempo. Como uma habitante do seu cárcere privado. 

Mas
os planejamentos já se iniciavam. Dava para ler nas entrelinhas das
comunicações. Dos olhares. Das frases ditas com rapidez. Estilo ao bom
entendedor. Cada ano vem com uma novidade. Uma orgia de criatividades.

Cada
um expondo seus afetos de forma especial.

Lembro
de uma vez. Quando cheguei de volta em casa. Ele havia iluminado a sala toda
com pequeninas velas. Muitas. Nem dava para saber quantas. Pareciam estrelinhas
contratadas. Ali. Em cada lado que virasse – um pontinho de luz delicada. Da cozinha
rescendia um odor quase onírico. A música fora escolhida com total adequação – havia
sido a primeira música. Lembro quando entrei na sala. E vi os brilhos no
escuro. A música. O cheiro. Passei um tempo em posição de surpresa. De pé. As duas
mãos no rosto. Um riso assanhadinho entre as mãos. A mais pura expressão de prazer.
Lembro da pergunta dele. Não vai entrar. Na mesinha muitos pacotinhos enrolados
com laços e papeis brilhantes. O vinho no balde. A mesa posta. O olhar dele. O riso.
Uma festa. Entrei. Sentei. O difícil foi tirar as duas mãos do rosto. O riso foi
fácil. Ficou para sempre.

Até
hoje – quando lembro sinto o cheiro e vejo as cores.

Uma
outra vez caiu num domingo. Ele levantou antes. Desceu. Da cama escutei uns
barulhinhos. Perguntei se estava tudo bem. Sim. De repente muitos barulhinhos. E
pés pela escada acima. Estavam todos lá. Ela também estava do lado de cá do
mar. E ali. Dentro de casa. Todos. Risos e risos. Me convidaram a descer. Estava
lá uma festa. De flores. Um pacote enorme enrolado de branco com fita vermelha
– descansava seu peso no sofá. A mesa. A mesa estava linda. Toda arrumada. Com tudo
que agradaria aos deuses gregos. E eles todos felizes. Ela só ria. E apontava a
sua parte na composição. Para destacar o – lhe conheço bem. Tantos anos que ela
não participava deste festejo. A comemoração passou a ser múltipla. Não faltaram
motivos. Desta vez a música era mais comunitária. Regida apenas por risos e
vozinhas. Naquele dia deu para entender o que falam sobre a magia do afeto.

Agora
escuto os burburinhos. Vejo olhares enviezados. Desta vez ela não virá. O além mar está mais além. Mas hoje
cedo já se fez presente. Informou da celebração. Antecipadamente. Como contagem
regressiva. Sempre atenta. E delicada. Já acordei rindo.

Foi
aí que veio o tal de repente. Aliás veio duas vezes.  Sempre explico a ele porque gosto de ópera. Acho
que ele já entendeu. Se não entendeu vai entender. Quando ler.

De
repente o Tempo passa. E passa mesmo. Ciente da sua função. Com absoluto
desprezo por reclamações. Vai lá fazendo um percurso que nem sequer é planejado.
Lida com tudo com total despropósito. Este é o Tempo.

Mas
de repente também o Tempo traz as respostas. Os retornos. Os possíveis merecimentos.

Entre
esses dois de repente – discordei de mim mesma. Depois me convenci de mim mesma.
Para depois entrar em estado de dialética.  

Diferente
do meu poetinha querido, me reconheci.  E,feliz,
dei um beijinho no espelho.

Não
fiquei tão-somente a serviço do Tempo. Também o fiz existir a meu serviço.

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    • lia
    • May 1st, 2009

    que bom que vc acordou sorrindo…. tenha um fim de semana muito feliz…

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