Orquestrando a Noite

Ela
me telefonou. A noite mal se instalara. E ela agia como madrugada afora.

Passara
a semana toda pensando o que fariam. Na sexta. Mil programações. Tinham duas
comemorações pessoais. Acreditou. Ele viria mais cedo. Para comemorarem.  Organizou o roteiro. Escolheu os cardápios.
Organizou o vestuário. Seria uma noite festiva.

Fazia
tempos que eles não tinham tantos motivos. Para festejo. Para celebração. Sim.
Esta a palavra certa. Celebração. Decidiram por celebrar os bons acontecimentos
da semana.

Quando
me telefonou estava emocional. Passional. Parecia filme italiano. Podia ate
vê-la gesticular. Ri baixinho. Não queria provocar mais emoções fortes. Quando
ela se desacreditava ela se descomprometia. Com o mundo. Com as etiquetas. Com
as regras.

Parecia
que entrava em narcose. Porque todo o jeitinho calmo e suave se
transformava.  Em explosão.

Lembrei
a minha avó. Ela dizia sempre. Cuidado com as pontuações, menina, cuidado com
as pontuações. Nunca vi ninguém que se adaptasse tão bem ao tal aviso de
alerta.

Falava
sempre doce. Com vagar. Nas frases dela continham de tudo. Desde hífen até
exclamações. Mas tudo muito suave. Compassado. Parecia uma harpa. Com toda a
leveza musical. Como um dedilhar pelas cordas.

Até
a hora que se desacreditava.  Ai sim. Nem
toda bateria faria tanto efeito. Era um ressoar de múltiplas sonoridades.
Simultâneas. Sincrônicas. Um outro tipo – de pontuação – surgia.

Uma
amiga a tinha convidado. Teriam um encontro para um café. Um vinho. Qualquer
líquido acessório. Cancelou. Cancelou. Ele avisou que viria cedo. Preferiu
esperar por ele. E não fazer encontros com pressa.

E
ficou sozinha em casa.

Nem
acreditou. Depois daquela semana só de problemas. Tudo bem. Nem lembrava mais se
tivera problemas. Mas isso não importava. Assim foi logo dizendo. Quando
perguntei pelos problemas. Importava que ficara só. Numa noite de sexta.

Dormiria
sozinha. Conversaria sozinha.


estava na fase da bateria. Esta é uma fase onde só produz sons. Não escuta sons.
Mais ou menos assim.

Mas
houve um segundo de silêncio. Um segundo bem fugaz. Por onde pude dizer uma
palavrinha. Uma frase. Por que não deixa para reavaliar amanhã. Nada melhor que
o dia seguinte. E ainda é cedo.

Não
respondeu. Ou melhor, não deu tempo de responder. Acho. Porque de repente
escutei um som estranho. Algo como um gritinho. Um risinho. Difícil decifrar
sons ao telefone. O som seguinte foi um estalinho.

Ela
voltou a falar com uma voz doce. Aquela de sempre. A pré-bateria. Ele voltara. Não
atrasara muito. O trânsito que atrapalhou a pontualidade do relógio. Não a
dele. Até contou isso rindo. Estava cheia de graça. Graça até demais.

Antes
de desligar escutei a explicação. Dela para ele.

Foi
ela que estava preocupada com você. Ainda me perguntou se eu não me
desconfortava. Por você marcar e não vir. Ou por estar em festinhas com suas
colegas de trabalho. Imagina. Logo você. Sempre cuidadoso. Afetuoso. Coisa de
amiga. Eu
estava apenas lhe esperando e lendo. Quando ela telefonou.

De novo o som
seguinte foi um estalinho. E o telefone foi desligado.

Do
lado de cá – ou de lá – pensei. Preciso comprar uma tuba.  Vamos ver onde a harpa ficará nesta orquestra.

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    • Anonymous
    • April 2nd, 2009

    Marcelo, meu preto, eu passei por essa descoberta há um ano atrás e posso lhe dizer de cátedra que a Ledite não tem cura. Uma vez fisgado: babau. E se for ler o blog inteiro piorou. Só Deus lhe tira desse anzol.

    • Anonymous
    • April 2nd, 2009

    Leda, a internet permitiu ao mundo que pessoas como vc surgissem. Ainda arranjarei tempo para ler seu blog inteiro. Bons textos não estão só nos livros. Mais uma vez, parabéns.

    • Anonymous
    • April 6th, 2009

    Maravilhoso como sempre! A sua forma de brincar com as palavras e de passar, através delas, cada emoção sentida detalhadamente, me causa um entusiasmo inexplicável. Acho que você toca a minha alma mesmo sabia?! Sinto vários sentimentos juntos, que se entrelaçam, tentando me dizer algo, me passar alguma mensagem para a vida.Adorei! Beijinhos!

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