Entre a Avenida e a Alameda

Lembro-me
da primeira vez que vi a casa. Foi logo depois que me mudei para cá. Estava mal
tratada na época. A casa, não eu. Estava solitária na época. Eu, não a casa.

O
nome era lindo. Até porque foi a primeira vez que encontrei uma casa com nome.
Maravilhoso. Dava até para sentir cheiros e cores. Só pelo nome. Em meio aquele
contorno que a sombreava, de tantos e tantos prédios, ela ali ficava. Linda.
Com seu jardim de rosas em volta. Insistindo em sua beleza muito mais que
acatando as ordens da redondeza.

Não
lembro um só dia que por ali passasse e não ficasse olhando. Imaginava como
teria sido a rotina dos seus moradores. Onde ficavam durante a noite. Se
passeavam entre as árvores. Se choravam as possíveis tristezas nos banquinhos
entre as flores. Se riam, descontraídos, em dias de festa.

Li
sobre a história da casa. Nesta época vivia eu à cata de histórias. Até porque,
recém imigrante, estava tentando construir a minha nova história por sobre a
antiga. Co-autora de mim mesma. Fora habitada até 1986.

Ao
contrário do que acontece com o passar do tempo, sob este contexto, nada foi
envelhecendo. Nem as minhas idéias, nem a casa.

Ela,
sendo restaurada.

Acompanhei
a placa de aviso na entrada. Os andaimes em frente à fachada. O entrar e sair
de materiais de reforma. O jardim meio que escondido sob estes tais materiais.

Eu,
arrumando e acrescentando o novo em meu currículo.

As
duas ganhando sua nova roupagem. Mas mantendo sua estrutura inicial. Para se
manter fiel aos projetos não é preciso esconder o que se construiu. Nem
destruir o que um dia foi planejado. É preciso conservar para poder revelar.
Expondo. Avivando cores. Retirando os detalhes sem conserto. Preservando
acessos de subida e descida. Possibilitando que novos percursos sejam ali
visualizados.

Assim estávamos as duas. A casa e eu com um
mesmo objetivo. Nos resgatando.

Difícil
escapar da questão do tempo. Ou quantificar
com exatidão. Passados tantos anos me vi diante da possibilidade real de lá
visitar. A casa. Era um sábado. Na idéia de atravessar da Avenida para a Alameda, lá estava nos jardins da casa. Não sei quem se surpreendeu mais.

A
esta altura minha vida se tornara mais de cá do que de lá. Duas surpresas me
fizeram esta demonstração. Houve uma época de severo anonimato. Até que um dia,
na escada do metro escutei meu nome. Alguém passava e me chamava. Para um
aceno. Para me dar um Lugar. Já podia ser reconhecida. A segunda surpresa veio
logo depois desta. Num espaço de shows. Lotado. De pé aguardando o início, de novo
escuto meu nome. Ela queria dizer do prazer de me encontrar. A partir daí me
senti fazendo parte.

Assim
também estava a casa. Neste dia da travessia, digamos assim, ela estava plena.
De pessoas. Tinha uma feirinha de livros nos jardins. Gente que expunha. Gente
que acreditava. Gente que oferecia. Gente que agradecia. Estava toda aberta.
Muitas pessoas circulavam por todos os ambientes.

Decidi
de um impulso só. Me aproximei da entrada. Pela porta da frente. Entrei. Conheci
as salas. Subi pela linda escada. Passei pelos quartos. Atrás – um lindo
terraço. Pude até escutar as vozes e o tilintar de xícaras. Devia ser ali que
tomavam o café da manhã. Ou tomavam um pouco de sol nos dias mais frios.

Quando
sai me despedi tocando numa das paredes de dentro da casa. Senti a parede
quente.

Lembrei
aquele autor que tanto admiro – o destino vem por trás. Não sei se concordo.
Pode ser que venha ao lado. Numa paralela. Assintótica ou não. Destino é coisa
de destino. Prescinde de saúde, engenharia ou arquitetura.

Surgiu
um convite. O convite mais surpreendente que poderia ter imaginado. Desde o
início. Desde a primeira olhada na casa. Mesmo depois do segundo reconhecimento
na cidade.

Haveria
uma coletânea. Uma edição especial. Um grupo da mesma área profissional.  Textos de cada um dos convidados seriam impressos
e publicados num mesmo volume. Todos colocando seus escritos numa condensação. Uma
exposição de si pela via que se sentisse mais confortavelmente exposto.

Fui
convidada. Participaria da edição. E me avisaram do local do lançamento. Seria
na casa. Na casa. Repeti isso para mim. Várias vezes. A esta altura a casa já
era um centro cultural. As idéias circulavam sem tanto recato.  Entrava agora para uma nova etapa. Com mais
segurança. Já não sei se me refiro a ela. Ou a mim. Porque também já estava me
sentindo com menos temor e recato diante das alternativas por onde caminhar.

Não
teria Lugar mais especial e nome mais adequado para que este meu passo se
definisse e se incorporasse a esta mais nova “reforma”.

Com
o passar do tempo continuamos nos equiparando. 
Já olhamos o mundo de dentro para fora. E permitimos que o mundo, também
assim, nos olhe. Tiramos os nossos tapumes. E enfrentamos, adequadas, as
avenidas e alamedas.

Ela
com seus novos visitantes. E reformada. Não mais mal tratada. Eu com meus novos
amigos. Já integrada. Não mais solitária.

Percursos
tão distintos – se igualando.

E
me senti – e me sinto – em suave parceria com a casa e o seu lindo jardim de
rosas.

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    • Anonymous
    • February 28th, 2009

    Que lindo, Leda! As reformas, a casa, a pessoa, tudo num renascimento constante, transformando a vida em encontros, se me permito plagiar o poeta. Crônicas assim tranmitem otimismo e aquecem a alma. Parabéns, amiga! Bjs

    • Anonymous
    • March 5th, 2009

    Belíssima, meus parabéns,

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