Plantonistas no Teatro

Aprendi
faz tempo. Alguma coisa a gente tem que aprender. Nem que seja por esforço.
Muito esforço. Minha avó sempre me dizia. Não para de se esforçar, menina, não
para de se esforçar. Pois foi assim que aprendi. Nada é como se quer. Tudo é
como se pode. E ainda com hífens. De acordo. Quando. Se. Sem falar no eterno
talvez. Que aparece a qualquer momento. Em qualquer situação. Em qualquer
relação. Tudo isso por um simples pode. Mas enfim. O jeito é ir aceitando um
pouco aqui. Recusando as revoltas um pouco ali. E crescendo. Dizem que isso é
crescer. Evoluir como ser humano. Assim falam os Amadurecidos de Plantão.

Não
podia ir. O convite nas mãos. E não podia ir. E tanto que eu quis. Não tinha
possibilidades. Voltei ao meu velho e bom pode – não pode. Desta vez ganhou o
não pode. A princípio pensei em me rebelar. Mas isso seria um retrocesso. Ao
meu amadurecido crescimento. Quem sabe chorar. Nada. Universo nem liga para
lágrima. Assim me pareceu na época. Agora ainda não mudei de opinião. Pela
quantidade de lágrimas que vejo derramando por aí e nada acontece. Esta é a
única conclusão. Universo não dá a menor atenção às lagrimas. Resolvido isso,
nada fiz. Decidi por agradecer. Obrigada. E dar uma sugestão. Tenho uma idéia. Deveriam
convidá-la em meu lugar. Ela andava meio triste. Seria bom. Companhia e Teatro
sempre fazem bem. Concordaram.

Convidaram.
Ela aceitou. Aceitou feliz. Foi o que me disse logo depois do convite feito. E
aceito. Eles eram um casal muito amigo. Muito atenciosos. Não tinha como ser
uma noite desagradável. Concordou também.

Cuidei
dos motivos da minha impossibilidade. As tarefas nos fazem este favor. Nos
tiram muitas vezes da vontade. De estar fora delas. As tarefas sempre dão seu
toque de ambigüidade. É fazer o que tem que ser feito. Um corte no tempo. E
pronto. Dizem que isso faz bem. Que ajuda a entender o mundo. As mil circunstâncias
do mundo. As responsabilidades no mundo. Assim falam os Resignados de Plantão.

No
meio da noite o telefone já me avisava. Do Teatro. Primeiro eles ligaram. A
peça foi maravilhosa. Eu iria adorar. Quase pedi para pular esta parte. Esta eu
já sabia. Intuía. Sei lá. Não precisava mais reforço. Já bastava o tal esforço.
Mas continuaram. Ela tinha sido muito simpática. Mas não repetiriam. Era
complicado. Falava como eu. Imitava
o gestual. Fazia as mesmas piadinhas. Até o tom de voz. Sem entender muito bem,
desligamos.

O
telefone mal foi pro lugar e já teve a função repetida. Era ela. A peça fora
maravilhosa, eu iria adorar. Que pena que não pude ir. Nem pedi para pular esta
parte. Daí ela me disse. Eles tinham sido muito simpáticos. Mas não repetiria. Perguntei já com mais ênfase. Parecia uma confusão mental. Sim. Falava como eu. Imitava o gestual. Fazia as mesmas piadinhas. Até o
tom de voz.

Desliguei.
Fui dormir. Pela manhã me concentrei. Tentei me lembrar dos telefonemas da
noite. Comecei a entender. Algo não combinava. Onde eu estava o telefone não
ficava ao lado. Teria que ter me levantado. E não lembrava isso. Resolvi me
certificar. Nada de ficar crédula. Em telefonemas noturnos. Depois de mais um
esforço refiz o já suspeito trajeto dos telefonemas.

Decidi.
Primeiro liguei para ela. Confirmei. Não tinha telefonado. Claro que não. Já era
tarde. A noite tinha sido ótima. A peça excelente. Repetiriam a dose. Por certo. Estava muito grata a mim. Pela sugestão. Queria
saber o por que da minha pergunta. Respondi nada. Um engano.

Liguei
para eles também. Ela atendeu. Estavam muito satisfeitos. Por terem concordado
com a minha sugestão. A noite tinha sido ótima. Adoraram a peça. Tanto quanto a
companhia dela. Não sabiam que ela era tão divertida. Repetiriam a dose sempre.
E esperavam que também pudesse ir. No próximo convite.

Então
fora mesmo um sonho. Como conclui pela manhã. Sem telefonemas. Sem comparações. Queríamos estar lá. Eu e meu inconsciente inconformado. Eu e meu alter ego.
Ri sozinha. Que vergonha. Que coisa mais feia. Mas enfim. Não fui ao Teatro. Isso
por certo. Mas fiz o meu particular. Meio atravessado. Lógico. Mas em silêncio.
E sem esforço.

Viva
o teatro do onírico. Onde se pode tudo que se quer.

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    • Anonymous
    • November 3rd, 2008

    Agora sim. Lido e adorado! (já tá até parecendo jabá, rsrs)Muito bom, mesmo.Fique tranquila, que nem em sonho, nem em vida real, existirão clones de Lêda Rezende…bjbjbj

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