Talvez fora, Certeza dentro


uma magia no amanhecer. Igual a ela só a do anoitecer. A primeira porque acaba
nos surpreendendo. Com o surgimento de planos novos. A segunda porque acabamos
o dia surpreendidos.  Com o planejado alterado.
Parece bolero antigo. Mas é verdade. Assim passam os dias. Ainda bem.  

Incautos,
tínhamos tudo planejado. Para a tranqüila rotina. Nada marcado. Chuva tão lenta
quanto o acomodar das idéias. Tudo em ritmo de rede e música. Como se seguindo
o deslizar lento e até pessoal daquele compositor. Que caminhou a passos leves
de cabeludo a sofisticado.  Achei pertinente
que ele servisse o som. Para que tudo ficasse em acordo.

A
alteração desta vez veio por escrito. Textual. Com indicação de tempo. De espécie.
De cheiro. De sabor. Tinha até sugestão de transgressão. De objetos roubados. Em
meio a elaboração.  Olhei para fora do
quarto. Ou melhor, arrisquei uma espiadinha. Chovia. Mas não considerei. Obedeci.
Não ao tempo. Mas à agradável alteração. Ao escrito. Uma receita com camarão. E
lá fui. Fomos. Rápidos. Receita de camarão vinda de lá é coisa séria.

As
ruas estavam úmidas. Enfeitadas por
agasalhos coloridos correndo. Muitos. Não importa a temperatura. Não importa a
visibilidade. A questão é seguir este comando. E perseguir a vitalidade
saudável. E lá estavam os agasalhos marcando as diferenças. Outros já
exaustos da citada perseguição seguiam o oposto. Direto para a barraquinha do pastel
de feira. Pastel de Feira. Procede.

Impossível
não falar da feirinha. Em meio às alamedas. Esta feirinha especifica. Nem todo
teatro. Nem todo personagem. Tudo ali é diferente. É um desfilar de talvez. Tudo
pode ser talvez. Talvez deste sexo. Talvez do outro. Talvez habitual. Talvez ocasional.
Talvez elegante. Talvez exagerado. Talvez ainda da noite. Talvez mal acordado. Talvez
parceiros. Talvez submetidos. Diante das barracas todos participavam como se do
lado de dentro. Mas felizes por estarem do lado de fora. E os do lado de dentro
fingindo. Que tinham muita intimidade com os do lado de fora. Viva a política. Da
feira. Desenvolvida e servida com pós-graduação em talvez.

Observei
uma senhora. Estilo sofisticada-despojada. Talvez simpática. Talvez solitária. Tomou
uma decisão. Seu cachorro deveria ser enturmado. Com a turma do pastel. Não deu
certo. Salvo algum risinho aqui e ali a recepção não foi das melhores. Resmungou.
Ela, não o cachorro. Virou-se em seu agasalho desenhado pelo italiano. E se
foi. Voltou. Esquecera de pagar o pastel. Às vezes é assim. Uma enturmação mal
sucedida acaba numa transgressão quase bem sucedida. Como dizia minha avó.
Limite-se ao adequado, menina, limite-se ao adequado.

Mas
enfim os camarões. Melhor cuidar da receita recebida que dos clientes
desavisados. Ou como se diz de onde vim. Dos fregueses. Em seus agasalhos. Amparados
e desculpados pelo talvez.

Em
meio a cheiros, calor e temperos, dividimos nosso espaço e nossas histórias. Sem
contar os sem números de idéias e projetos. Domingo com chuva dá nisso. Uma elocubração
atrás da outra. Pode faltar tudo. Menos projetos perfeitos. E muito riso. Dente
de alho voando do local a ser amassado. Pranto convulso de cebola. Mas ele não mandou
colocar cebola. Guarda a cebola. Seca as lágrimas. Panela mais quente do que o
indicado. Fogo apagado as pressas. Põe mais azeite de oliva. Agora foi demais. Correto. Azeite nunca é demais. Deixa então. Quase faltou pão. Não é que ele avisou. Cuidado
para não comer o pão. Mas pecamos. Aquele pecado que nunca sei o número. Vai ver
comi até o número. Junto com o camarão e o pão. Que delícia.  

Fiquei
lembrando o filósofo grego. Entendia de banquetes. De solidariedade. Sabia bem
o que era sair das cavernas. E voltar para elas. Entendia de venenos. Entendia de
defesas. Até de apologias. Decorava tudo que escutava. E repetia mundo afora. Ensinou.
Aprendeu. E se perpetuou. Mas nunca. Nunca comeu esta iguaria. Nunca alguém lhe
enviou uma receita. Nunca sentiu este cheiro. Nunca provou deste banquete. Maravilhoso.
O Banquete. De cá, não o de lá. Fiquei com dó dele. Do filósofo. O mundo nem
sempre é de idéias.

Demos
um descanso ao compositor do início do dia. Seguimos com um tenor. Que nos
acompanhou durante a execução do tal pecado. Una Furtiva Lacrima. E já que o
fim de semana foi de brindes – Il Brindisi com a taça bem erguida – para o
autor da receita. Que venha a semana. Estamos preparados. Com certeza.

  

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    • Anonymous
    • October 16th, 2008

    Leda, querida:Esses últimos dias foram tão atribulados que nem pude passar aqui como de costume. Só agora que consegui me atualizar no seu blog – e você nem imagina o quanto bem isso me faz.Fico feliz por ter contruibuido com o domingo de vocês. Eu avisei sobre o pão, lembra….rs? Deviam ter comprado mais…rsSobre os escritos, babo tanto, me surpreendo tantas e tantas vezes que nem me canso disso. Ficar abobalhado assim já se tornou o meu estado natural.No mais, só te agradecer amiga por tanta coisa bela com as quais seu talento nos brinda sem cansar.Um Abç em LuizE.C.

    • Anonymous
    • October 13th, 2008

    Leda, que delícia seu domingo e sua escrita!Boa comida, boa música, bom papo… e esses camarões… hummmm… to sentindo o cheiro daqui!!beijao,Camila

    • Cristiane Barra
    • October 17th, 2008

    Ledinha,estou aqui na madrugada do plantão lendo seus textos (plantão de bom prognóstico!!) e mais uma vez me encantei.E me deu vontade. De camarão, de conversa, de domingo com folga e chuva, de família. Ainda bem que tenho amigas para conversar na segunda-feira e que a mamãe chega na terça.Abastecida.Não com camarão.Com pão-de-queijo!! Beijo enorme,Cris.

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